Até que o oceano nos una ou a reunião

A menos de dois quilómetros dali, as sirenes gritavam a infracção. André fitava-a, chocado perante a atrocidade que ousara infligir ao sistema. A humidade quente das noites insulares unia as suas respirações aceleradas no último de muito erros, absolutamente, bestiais.

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Os passos abafados pelo musgo indicavam a aproximação de um mundo real a que nem André nem a velha Matilde estavam receptivos.

O homem de vinte e seis anos ofereceu o braço ao decrépito monumento que acabara de conhecer.

“Obrigada, querido”, sorriu-lhe Matilde. Os seus olhos eram duas esmeraldas reluzentes ao luar grávido de um final de Agosto.

Enlaçado, o par improvável rompeu a calmaria ambiente, perturbando o odor delicioso a eterno natal daquela saída.

O rugido domado do carro alugada de André cortou o silêncio.

“Para onde?”, quis saber a idosa. “Para o aeroporto. Antes que nos descubram”, explicou André.

Os dedos esculpidos pela temporalidade demorada da prisioneira agarravam o volume considerável de papel e fios.

“Caro André, de facto, vivia na capital na altura da revolução. Os militares encarregaram-se de levar todas as mulheres e crianças para o arquipélago. Fizeram de nós refugiadas no nosso próprio país…”, discorriam as primeiras linhas das folhas amareladas pelos curtos dois meses do reencontro.

“Nem acredito que lá vou voltar”, murmurou Matilde, mergulhada na felicidade sufocante do pânico.

“Calma, avó. Está tudo preparado”, afagou-a o filho de uma guerra que ceifara a saúde do seu pai, deixado quase à orfandade pela segregação revolucionária.

A noite obedecia-lhe. Pálida e mal dormida. Arrependida do assassinato da luz, mantinha uma estranha abóbada tresmalhada.

Os dois quilómetros de alerta extinguiram-se no rápido curso de uma parada de carros azuis e brancos tresloucados pela seu apelo encarnado.

Na estrada que os levava para longe do lar de terceira idade, onde, finalmente, as sem família, terminariam os seus dias, André espreitou a corrida parva da busca inconsciente.

A revolução terminara. A democracia tinha ganhado terreno, nos últimos anos. As ilhas recebiam, agora, largas vagas de visitantes, sem qualquer controlo alfandegário.

Uma viagem ao sul do Tejo ou à Fajã Grande das Flores custava, genericamente, o mesmo quase nada.

André invadira esse paraíso natural na Terra, munido das extensas cartas que lhe haviam revolucionado a existência e de um desejo fanático de resolução.

O questionamento sempre lhe viera a alto preço, mas desta vez a rentabilidade do negócio jornalístico ultrapassara todas as suas expectativas.

Os seus dedos calejados pela força cruel que imprimia no ato da redacção abraçavam o calor desconfortável dessas mãos antigas, as únicas que lhe restavam no mundo.

A polícia seguia, insana, ruidosa.

Matilde, sentada no seu destino, observava a indiferença daqueles que julgavam impensável o resgate de uma dessas vítimas forçadas à solidão pela loucura da fome política.

“Mais cem metros, avó”, acariciou André.

Depois, o vento preguiçoso daquelas partes açorianas beijou-lhe o rosto.

A lua estava tímida, enroscada no manto inconstante de nuvens e escuridão.

A barca da meia noite partiu, decidida, sobre o mar tornado rio pelo costume do marinheiro.

No bolso, queimava-lhe o parágrafo fatal que expusera estas, duas gerações à urgência da alteração.

André beijou-lhe, pela primeira, vez o rosto enrugado.

Ao fundo, a silhueta rechonchuda da capital brilhava. “Bem-vinda a casa”, sussurrou aos anos de familiaridade que, por fim, conquistara.

Para ouvir: Beside you de Frederico Albanese
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