A maldição da produtividade ou a exaustão

Hipnotizados pela vastidão infinita de possibilidades que 2016 parece oferecer, empilhamos tarefas e metas que, não tarda nada, se transformarão em bestas assustadoras que devoram dias, sorrisos e todos os fôlegos disponíveis. Vamos fazer da produtividade um mito!

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Era uma vez um tempo em que deixar um dia ao abandono inútil da leitura era rotina; em que acordar ao meio dia, já sem pequeno-almoço para tomar, era uma vitória; em que acreditar no descanso como catalisador do sucesso era vulgar.

Era uma vez um tempo falecido.

No quarto escurecido pelas cortinas grossas, estrategicamente, escolhidas para desincentivar a insónia permanente, experimentava o primeiro dos sonos profundos em meses.

A minha respiração passava, por pouco, ao lado da inexistência.

A silhueta torcida e em total inércia anunciava um atraso aflitivo que, em breve, desencadearia uma manhã apressada.

Rolei sobre mim própria, num estado onírico de preocupação constante.

“Oito e meia”, gritou-me a irónica cara do telemóvel adormecido ali ao lado.

“Oito e meia?”, berrei, saltando da vida horizontal para o ritmo insano das expectativas efervescentes.

Depois, especada perante a lenta ebulição matinal do meu pequeno-almoço, questionei essa loucura que é considerar um dia perdido ainda antes das nove, quando só às quatro se têm um dever oficial a cumprir.

A alegria de viver sozinha e rodeada de horários universitários estrambólicos é simples: é a actividade feliz de sobre-somar tarefas e leituras numa ânsia parva de produtividade.

Talvez seja esta a patologia mais grave da nossa geração: a necessidade de ter tudo a todos os momentos, vivendo uma existência dupla – por vezes, mesmo tripla – de deveres e preparações rígidas para os futuros brilhantes [entenda-se utópicos.]

Na esperança de assassinar as estatísticas e sobreviver à selvajaria do iminente mercado de trabalho, engolimos pedaços crus de aveia e esforços ridículos no sentido da contenção de erros calóricos e da expansão de gorduras saudáveis.

Somos todos errados – já aqui falei dessa maldição do género certo de peculiaridade – somos todos terríveis; estamos todos, urgentemente, à disposição da mão do escultor.

A produtividade é, prevejo, um mito feroz que, passado esse limbo cruel, não hesita em agravar o seu peso, apostando na obesidade que faz crer que pelas nove da manhã o mundo já deve estar conquistado para todo o dia.

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3 pensamentos sobre “A maldição da produtividade ou a exaustão

  1. belo texto!
    e depois da universidade, quando nos enfiamos num escritório, é ainda pior! há uns tempos li no NYT um artigo sobre a arte perdida de não fazer nada, e este texto lembrou-me disso 🙂

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