The hateful eight: quase que confio em ti ou não

Um génio da nostalgia, da intriga e da complexidade comestível, Quentin Tarantino avança para o seu oitavo filme, The hateful eight, com a certeza de que quase três horas de tensão não podem deixar sair ileso qualquer espectador.

A justiça executada com paixão corre sempre o risco de não ser justiça“, comenta Oswaldo Mobray (Tim Roth), o [pretenso] enforcador de Red Rock.

Detidos numa cabana na fronteira dessa população pelo poder de uma tempestade gelada de Wyoming, os oito protagonistas da mais recente longa-metragem de Quentin Tarantino seduzem o espectador, fascinando-o com uma promessa latente de violência, que demora, mas não tarda.

Mais de hora e meia de profunda caracterização e espacialização produz, por fim, uma alteração profunda, que desencadeia um ciclo de horror pelo horror, arbitrariedade e sobressalto à boa maneira do “western” que aqui se tenta simular.

2

Desde o início, The hateful eight (Os oito odiados, na tradução portuguesa) carrega um brilho especial.

A sonoridade (a cargo de Ennio Morricone), a coloração, o grafismo, o detalhe e a constituição material das personagens anunciam a definitiva ressuscitação de uma era cinematográfica distante.

A fita de Tarantino parece, efectivamente, perdida numa outra época de Hollywood: até os efeitos sangrentos e o excesso dos seus  últimos capítulos são relíquias a que faltam o realismo que a contemporaneidade poderia ter emprestado.

É claro que há em The hateful hate um espírito de mestria que supera essa nostalgia.

1

De facto, até mesmo essa sua natureza nostálgica pode ser entendida como um truque eficaz na adaptação a uma género já menos popular, nos dias que correm.

O filme, independentemente da leitura que se decida conceder à sua superfície, desfruta da rara capacidade de manter o interesse do espectador perante a subordinação da acção ao reinado das personagens.

É esse ambiente velado, a descrição rica conseguida através de diálogos deliciosos e a dinâmica torta que sustenta o grupo do qual se destaca Major Marquis Warren, interpretado por Samuel L. Jackson, John Ruth (Kurt Russell) e a sua prisioneira (Jennifer Leigh) que possibilitam uma obra de tão largo fôlego e tão magra narrativa.

A conspiração é simples (anuncio sem lhe estragar a surpresa). As respostas quase binárias. A complexidade socio-política implicada infinitamente monumental.

5

Em toda a sua extensão (quase três horas de entretenimento), The hateful eight parece invocar essa grandeza que Eleanor Catton impingira à sua obra prima, The Luminaries.

Tarantino, à semelhança de Catton, sucede na articulação imensa de pequenas narrativas cuja aparente desconexão atiçam, respectivamente, o espectador e o leitor.

Em Wyoming, são pelos menos oito as silhuetas dissecadas e são quase duas horas investidas nessa actividade sem nunca perder de vista a expectativa de que, a qualquer momento, uma séria explosão acontecerá.

Na última parte, Tarantino escolhe não frustrar essas esperanças, fazendo-o, contudo, de um modo quase previsível que trai o génio original.

3

The hateful eight está longe de ser adequado a estes dias natalícios – espere pelo fim do ano, ou até mesmo por Janeiro, se sofrer de uma sensibilidade aguda – mas, irremediavelmente, não pode ser perdido.

Tarantino usufrui de paradoxos, reviravoltas e do género certo de humor sarcástico.

Ainda que bem mais pobre do que a primeira hora e meia, o final sabe coroar esse investimento narrativo com um estrondo que nos deixa a pedir sempre mais.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s