Um mês de estórias [e favoritos]: Dezembro

Dezembro trouxe-me exaustão; levou-me a casa ainda com o peso do mundo sobre os ombros; atiçou os meus limites; fez mirrar o meu espírito natalício; congelou-me; apaixonou-me; fatigou-me. Eis agora o desfile dos valentes favoritos que resistiram à clausura que o excesso de trabalho motivou.

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Para onde foi a dádiva que costumava ser Dezembro? Se a virem por aí, estou aqui à sua espera.

Uma semana de preparação estúpida para quatro dias derradeiros; um novo vizinho e uma viagem tão confortável como em três anos nunca se registou (bem, até à queda quase literal do céu).

Dezembro foi assim: atarefado, ridículo e sufocante. Confuso, em suma.

Às noites meigas lisboetas, agradeço o refúgio solene.

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Nas poucas horas que, ao fim do dia, dediquei ao meu moribundo espírito natalício, tive a oportunidade de aproveitar o espectáculo Portas Encantadas no Arco da Rua Augusta.

Uma genuína injecção de felicidade infantil que, se estiver pela capital, não pode perder.

Mesmo em frente, estende-se o cadáver triste do sonho de uma pista de patinagem no gelo, que o infortúnio fez permanecer inactiva durante a minha estada.

Uma miséria inconveniente que, estava certa, marcaria presença na elite dos momentos gloriosos deste mês.

Ainda assim, envolvida pelo parco frio da capital, andei enroscada na minha camisola predilecta (esta jóia de conforto da Green Coast), cuja combinação com um par de tranças francesas invertidas, um casaco de couro ajustado à silhueta e um sorriso feroz (pintado a 06 Intensely Lavish Lipstick da Kiko) fez cantar a minha alma.

Nos dias menos excêntricos – que o batom escuro ainda é um segredo para os dias especiais – o Timeless Allure da Rimmel, uma versão quase inútil de carmim que me afasta do aspecto espectral recorrente.

Do meu rosto à sua lateral, Dezembro trouxe a consolidação do reinado da minha a companheira fiel de viagem.

Lorde em toda a sua glória não deixou o meu ouvido. Buzzcut season e Love club foram as canções que, estranha e facilmente, fiz substituir aos habituados cânticos natalícios. (Bublé, o seu monopólio sazonal já era. Lamento.)

Em boa verdade, a voz humana é para mim, porém, somente, adequada  a esses momentos de migração diária.

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Em todas as outras ocasiões, a querida Lorde viu-se trocada pela magistral Poppy Ackroyd, uma compositora londrina dedicada à manipulação das melodias do piano e do violino.

Feathers (2014) é o álbum que me apresentou a sua mestria: é leve, requintado e sentimental. Uma verdadeiro delícia auditiva.

O sucesso Escapement  (2012) não lhe fica, contudo, nada atrás.

Se quiser fugir à doçura embriagante dos clássicos natalícios, deixe-se fluir nestas peças monumentais. Garanto-lhe que vai invadir um novo universo!

Com a extraordinária Feathers – a faixa, não o álbum – na alma e uma imensa vontade de não cair na loucura, dediquei-me, ainda, à confecção tradicional dos homens de gengibre mais saborosos de toda a minha casa.

Este ano, juntei-lhes canela e uns amigos de chocolate de fazer crescer água na boca.

Já equipada com os quilos extra que a estação sugere (esperemos que de fácil extinção), mergulhei no encantamento barato do canal Hollywood.

Bruce Willis e os seus múltiplos sucessos de Domingo à tarde mantiveram-me acordada, mas é talvez o filme Les Fils dos irmãos Dardenne o meu favorito cinematográfico deste mês.

É cru, desconfortável, claustrofóbico.

Não agrada de imediato, mas num segundo momento e depois de compreender o que lhe está, verdadeiramente, subjacente (sugiro este comentário) revela um dom incomensurável de fazer do simples uma ilusão simplista que esconde um coração de ouro.

Claro que à potencialidade artística dos Dardenne, Dezembro juntou a precariedade amadora da avalanche de Vlogmas.

Seria, portanto, impossível deixar ficar calada esta companhia diária, que, ainda assim, não conseguiu em pleno instigar a minha alegria natalícia (de facto, ainda estou à sua procura).

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Termino este mês de favoritos marcado pela venda do Banif ao Santander Totta, pelo mau tempo mortífero nos Açores, pelo avanço da extrema-direita em França, pelas negociações transnacionais em torno das alterações climáticas e por tantas outras estórias que aqui pode reencontrar com o desejo de que 2015 lhe forneça uns últimos minutos de êxtase.

Passe pelo The New York Times e aproveite este Behind the black flag: the recruitment of an ISIS killer por Chivers, para, já mais informado, voltar à sua luzidia árvore de Natal.

Aspire quantidades copiosas de bolo inglês e Porto; inebrie-se com a felicidade de conceder; sinta a magia.

Em breve, chega essa besta lendária da dívida e do descontentamento, esse Janeiro, mas, por enquanto, cá estamos nós, entusiasmados com as luzes.

 

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