Invisibilidade ou miragem a 11 mil pés

Lá em cima, na cabine direita do lugar mais à frente, o olhar fascinante de Ricardo fez extinguir esse viveiro de aberrações sociais; apanhou-a para nunca a mais soltar.

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A noite estava calma. Gélida e apática. Remetida ao costume lisboeta da morte lenta e muda por hipotermia mal anunciada.

A pista não iluminada do terminal dois conduzia algumas dezenas de passageiros incomodativos com os seus sotaques carregados, imutáveis aos bancos claustrofóbicos do tubo de metal.

Baixo, anoréctico e de baixo custo. Um perfeito exemplo da economia apertada das oportunidades.

“Boa noite. Para Paris, não é?”, perguntou-lhe o assistente de cabine.

Era atraente com a sua barba a roçar os três dias de selvajaria, os seus olhos de princesa bem desenhados e aquele sorriso de sorte ao amor, ao trabalho e à vida como se quer.

“Boa noite. Não, para Londres”, retorquiu Catarina, de disposição controlada e ansiedade ao rubro.

“À esquerda, por favor”, sorriu-lhe o homem com poucos anos a ultrapassar os vinte.

A atmosfera amarelada do avião arrepiara-a.

Sem aviso e de acordo com o hábito que, recorrentemente, desejava vir a ser revelado um mito, a lixívia gasosa entupiu-lhe os pulmões.

Três horas de ambientes reciclados, crianças e bancos nada reclináveis: uma extraordinária aventura.

Sentada no cómodo lugar da prisão à janela, imaginava a silhueta invisível do aeroporto.

Fixou a sua The New Yorker nos joelhos. Ajeitou o Homem invisível e dedicou-se à caça de histórias – uma actividade predilecta em qualquer ocasião (e comummente conhecida como coscuvilhice aguda.)

As cabinas magras de apoio ao roubo implicado na bagagem de porão iam vomitando volumes de mão demasiado obesos para caberem em tal categoria.

Mulheres gastas, velhas ou a rondar a maternidade, desfilavam.

Homens demasiados altos, carcomidos e curvados sob o peso da paternidade arrastavam-se.

Jovens com olheiras negras e grandes barrigas de cerveja e atum rastejavam.

Lá em cima, na cabine direita do lugar mais à frente, o olhar fascinante de Ricardo fez extinguir esse viveiro de aberrações sociais; apanhou-a para nunca a mais soltar.

Um metro e oitenta, sobrancelhas vastas, mas arrumadas, lábios carnudos enquadrados pela fartura certa de mantimentos capilares faciais, um imenso poder no olhar.

Naquele caos, Ricardo era um deus: desajeitado na tarefa de fazer o armário engolir a sua existência, persuasivo no olhar que lhe deitava, apaixonante no esqueleto que fazia sobressair da multidão de turistas e migrantes.

Catarina baixou os olhos. Tentou adivinhar o avião vizinho num exercício idiota de distracção. Enterrou o cérebro no racismo de Ellison.

Ao seu lado, a ausência era perturbada apenas pelo charme distante e negligenciado de um estudante a caminho de casa.

Ouviu o estrondo da sedimentação dessa cadeia inquebrável da sua imaginação.

Lia Kafka. O processo na edição da Livros do Brasil que, há dois dias, ela mesma cobiçara.

Lia Kafka e estava ali sentado, na ponta do seu cotovelo, Ricardo.

Embrenhado naquele momento intelectual surpreendente, os braços musculados de Ricardo ocupavam todo espaço a que tinha direito.

Remetida à pequenez da janela, Catarina vivia, por isso – sem opção ou desejo díspar –  aquele odor delicioso a almíscar e canela.

Três horas de tensão, olhares desviados e estudo anatómico afinco: uma extraordinária aventura.

Dez páginas de Kafka foram suficientes para o adormecer.

Reclinado, de boca quase aberta e pestanas proeminentes, Ricardo ocupava, sem saber, um lugar fértil na fantasia dessa eterna profissional remetida à solidão do seu silêncio.

Nem uma palavra. Nem mesmo quando a queda repentina do céu quase forçou o contacto.

No final, aquele inexplicável mistério da recolha de bagagem que devora passageiros, impedindo qualquer reencontro.

Todos os romances surdos a mais pés dos que se podem contar terminam com a revelação da natureza gasosa desse parceiro adónico…

…até que talvez, um dia, quem sabe, a pressão do voo não a atire para um estado de exaustão tremenda e o aeroporto do destino não engula as recém semeadas possibilidades de felicidade.

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