Purity: o encontro perverso de Snowden e Assange

Jonathan Franzen faz suceder Purity (2015) a Correcções (2001) e a Liberdade (2012), consolidando a sua qualidade mágica de erguer monumentos densos, mas potencialmente simplistas que não podem deixar de ser lidos.

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Pip Tyler pode até dar nome ao romance; pode, efectivamente, povoar grande parte do arranque desta história; pode mesmo fingir ser o verdadeiro fio condutor; mas Franzen, em toda a sua mestria luxuosa, sabe que esta jovem instável, perturbada, vulgar e em conflito é pouco mais do que um instrumento de sedimentação do monumento principal deste enredo: Andreas Wolf.

O estilo de Franzen é simples, correndo, perigosamente, por vezes o risco do simplismo.

Em quase 700 páginas, discorrem frases casuais desprovidas de uma alma poética extraordinária e, no entanto, bombásticas na sua missão.

Andreas Wolf é, indubitavelmente, nada mais do que um produto inteligente, ousado e perspicaz dessa qualidade franzeniana.

Nascido e criado no seio do privilégio de que desfrutavam as elites políticas da Alemanha de Este anterior à queda do Muro de Berlim, Wolf é um delinquente sofisticado, perverso, sexualmente obcecado, inconstante e, profundamente, hipócrita.

Agora a viver na Bolívia, o alemão ocupa o lugar cimeiro no Projecto Luz Solar, uma demanda em tudo semelhante à infame Wikileaks de Assange motivada por um evento quase snowdiano.

Wolf trocou a vigilância apertada do regime alemão pelo panótico dissolvido da era digital, odiando, ainda assim, todos esses companheiros mais ou menos ilustres que se digladiam pela transparência [utópica] do universo virtual.

Desde logo, a animosidade de Wolf relativamente a qualquer outra figura que não ele próprio é indício de um ego gordo (entenda-se, verdadeiramente, obeso) que procura no próximo, somente, o potencial proveito próprio.

Purity de Jonhatan Franzen é, portanto, uma obra enigmática, relevante.

Dividida em sete grandes porções que gozam a linearidade e introduzem em toda a sua glória personagens plenamente concretizadas, Purity é, apesar de tudo, uma obra, tendencialmente, episódica.

Se é verdade que Pip protagoniza falsamente o romance, iniciando-o e estimulando um enredo, na minha modesta opinião, bastante secundário, é, do mesmo modo, genuíno que a passagem entre vozes não é tão harmónica como seria desejado.

Semelhantes e, paradoxalmente, tão conflituais – a milhas de distâncias entre si – as silhuetas de Franzen são sólidos comentários ao jornalismo de investigação, ao universo digital, à transparência, mas também à fidelidade, ao casamento ou até a esse fenómeno raro que se denomina de parentalidade.

Purity é, de facto, uma contribuição ampla para a literatura norte-americana contemporânea [embora falhe, massivamente, no final apressado que escolhe, isto é, mais 300 páginas seriam, imperativamente, necessárias ao desenlace.]

Franzen sucede pela força que consegue arrancar desses humanos defeituosos, interessantes e improváveis que faz desfilar.

Numa amálgama geográfico-temporal maníaca, a simplicidade estilística contrasta com a densidade psicológica de um dos elencos mais perturbadores e marcantes dos últimos tempos.

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