Impunes somos selvagens

O fio coado de luz que a porta desbotada deixava ecoar pelo quarto escuro de Amanda tremia ao ritmo insano do invasor especado do outro lado desse muro de madeira.

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A mulher de 50 anos e aspecto maciço levantou-se, na esperança de estar a sonhar.

Poisou a base lateral do crânio sobre o tecido frio desse divisor e esperou. Nada. A casa estava em absoluto adormecimento.

Rodou a chave que, pelo hábito universitário, trancava, todas as noites; mergulhou na gélida atmosfera não contaminada pelo hálito fresco das nove horas de repouso; fitou a porta semi-cerrada da sala de estar e a luz inconfundível que de lá brotava.

Estava-lhe alguém na alma, sem permissão.

Amanda ousou verificar pela brecha permitida a presença desse estranho, mas o ângulo inconveniente – um dia, fabulosamente, peculiar – confundira o seu sentido de orientação e levara-a a pensar-se sozinha.

Abriu a porta decidida, seguindo com convicção rumo ao sofá vazio em contraste com a entrada.

De costas para a dimensão total dessa caverna de memórias, chegou-lhe o bater doce e forte do falecimento.

Os pulsos de Pedro tremiam sobre o ato tremendo que acabara de cometer.

Enrolou as mangas, sentou-se no sofá, junto ao cadáver recentemente plantado, quase em pânico.

“O meu primeiro assassinato”, pensava, congeminando a vida a que lhe levara aquele dia de anomia.

O aviso húmido colado às grades da fábrica da sua existência, o desespero dos pares que ali se haviam criado, a arrogância da não presença dos falidos, o primeiro roubo: a vida num corrimão de suspiros que, agora, lhe guiava os impulsos pela limpeza estratégica da casa de Amanda.

Deixou-a ali, confiante na impunidade que só um reino do avesso como aquele poderia garantir.

Afinal, quem melhor do que a vítima desse estado de selvajaria iminente para reconhecer as possibilidades de negócio semeadas nessa crise?

Para ouvir: Tunglia de Ólafur Arnalds
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