Um novo espartilho: o género certo de imperfeição

Mergulhados numa cultura de aparente democrática natureza, lá somos nós levados ao corte e costura das nossas personalidade e existências em prol de um novo bem maior: o género certo de imperfeição.

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Aspirantes que concretizam o seu ideal de perfeição são assustadores.

Durante anos, assistimos à demanda sorrateira de um certo género (entenda-se a estirpe certa) de imperfeição.

Do aluno problemático atrapalhado não pela estupidez, mas pela vastidão de questões profundas e filosóficas que enalteciam a sua inteligência à rapariga curvilínea que, miraculosamente, caía do lado certo da caça adolescente, fomos resgatados pela ideia quase democrática de uma rotura total dos estereótipos de anterior sucesso.

Hoje, entre campanhas que anunciam a multiplicidade simpática de corpos ideais e o convívio com potenciais génios alimentados, genuinamente, pela sua preguiça em confronto com a sua peculiar luz, suportamos a fachada de uma cultura que finge aceitar, mas insiste na marginalização do que sempre foi marginal.

Não é que a extrema gordura ou magreza, a responsabilidade limite ou a decadência extravagante tenham entrado em voga.

Continuamos, irremediavelmente, a ser esculpidos pelo modelo diário de um ser que é agora nada mais do que o grito flagrante desse género dócil e sempre popular de delinquência. 

Se, durante décadas, digerimos uma perfeição adónica para logo depois estimularmos milhares de problemas psicológicos nessa missão até ao topo; hoje confrontamo-nos com a aceitação discriminatória de um certo regime de existência.

As medidas certas, o nível de desleixo certo, a bibliografia certa, o histórico cinematográfico certo, e todos eles um pouco errados: o corpo enaltecido pela saúde, a trança poeticamente desfeita, os autores cuja genialidade ainda está por provar, os filmes obscuros de valor artístico incomensurável.

Chegamos, portanto, à idade do atleta profundo. 

Não somente pela acção manipulativa – reconheça-se, igualmente, como manipulável – das redes sociais, erguemos esse protótipo de ser humano, votando-nos, mais uma vez, a um espartilho que agora insiste em encher as formas e aniquilar os que seguiam no caminho dito indicado.

Aspirantes que concretizam o seu ideal de perfeição são sempre assustadores.

Os amigáveis, é certo, são os arrogantes que ocupam o pedestal da imperfeição em toda a sua glória de polémica e inconformidade.

A não confundir com a populaça que luta contra todos os seus excessos e défices que jamais caberão nesse molde doirado de estranheza.

Para ouvir: Strata de Poppy Ackroyd
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