O exército dos meninos perdidos

Idris Elba e Abraham Attah brilham na monumental longa-metragem de Cary Joji Fukunaga, Beasts of No Nation. Arrepiante, inteligente e cruelmente doce, este é, sem dúvida, um dos melhores filmes de 2015.

Eu sou o vosso futuro“, grita Commandant (Idris Elba) ao exército de crianças-soldado reunidas ao seu redor.

Agu (Abraham Attah), que chegara ali pela orfandade provocada pela guerra civil e pela acção assassina dos rebeldes, deixa perceber a vulnerabilidade que sobrevive, contra todas as expectativas, no menino tornado carrasco cruel.

Beasts of No Nation de Cary Joji Fukunaga triunfa pela mestria dessa implacável combinação de infantilidade e frieza.

A selva que lhes serve de abrigo é, rapidamente, percebida como uma fértil Terra do Nunca, onde a inocência original é congelada a par do crescimento devastador do instinto de vingança.

As vestes coloridas e remendadas do exército que Commandant lidera indiciam essa eterna infância forçada a conviver com o sangue das vítimas conquistadas pela causa maior.

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O filme inspirado no livro de Iweala perturba, arrepia e comove não pelo uso arbitrário do crime, mas pelo desfile destas bestas, assustadoramente, doces e malvadas.

Beasts of No Nation é, portanto, uma indubitável obra-prima fundada num brilhante argumento e em intocáveis representações.

Ellba fascina no seu meio fato de Peter Pan maléfico; na sua máscara de convicção e genuína força.

Attah encarna um Agu destroçado, monstruoso, inesquecível.

Ambos vestem as peles dos assassinos que a guerra produziu com o conforto deslumbrante dos verdadeiros génios.

À densidade que as personagens de Fukunaga carregam, Attah e Elba adicionam vestígios de humanidade desumana, aproximando Agu e Commandant, respectivamente, deste espectador, irremediavelmente, hipnotizado.

A coloração quente, a montagem fina e os jogos de luz impressionantes esculpem, por outro lado, uma história que maravilha do primeiro ao último minuto.

Este original do Netflix arrasa a concorrência com uma dose desmedida de criatividade, inteligência e crueza difícil de conseguir.

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Ao longo da fita, ecos de uma rádio britânica vão surgindo como vestígios desse mesmo espectador, levado ao local pela sua distância desinteressada.

O comentário ao poder, à revolução, à guerra, à política e quiçá ao jornalismo surge de forma tão orgânica que começa, desde então, a refutar toda e qualquer resistência.

Commandant luta contra as estruturas do poder que despedaçaram o seu país para logo encontrar no topo da sua luta um político profissional.

“Esta é agora uma luta pela imagem pública”, critica, acrescentando ao efeito feroz da fita de Fukunaga uma nova dimensão de interesse.

Beasts of No Nation é, por tudo isto, uma experiência cinematográfica irreverente à qual se prometeria um lugar no pódio, não fosse a genialidade não Hollywoodesca com que transforma o cruel num conflito tremendo entre o assassino e o infantil.

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