Não me chames de querida ou o elogio criminoso

 

No seio da loucura lisboeta habitual, Alexandra era uma frágil gazela exposta no topo de um par de saltos elegantes e sob a sua condição redutora de género, aparentemente, sinónima de um convite arbitrário ao elogio .

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Pelas ruas de temperatura bipolar, Alexandra arrastava-se entre o sufoco do acostumado modelo de protecção projectado para gigantes utópicos e a irritação de uns saltos escorregadios que lhe faziam saltar as pernas.

O semáforo vermelho fizera-a ficar especada entre as obras da capital em ebulição e os fluxos tresloucados que, em menos de nada, a transformaram num alvo fácil aos elogios não convidados.

Alexandra rodou sobre os calcanhares e seguiu caminho, decidida a tomar o percurso mais longo em virtude da eventual tranquilidade que, assim, esperava vir a adquirir.

“Inacreditável. A viver no século XXI e ainda vítima deste assédio vulgar”, mastigava, ansiosa pelo encontro solene com o seu sofá.

A tarde mal estreada gritava os momentos mais quentes de um inverno infernal.

A calçada brincava às escondidas com turistas e nativos lisboetas participantes de um engelho cuja sincronia deixava muito a desejar.

Ao fundo, as escadas, progressivamente, engolidas pelo pavimento esbranquiçado albergavam o homem zonzo que se dirigia sem pudor à multidão em movimento.

A batida regular do calçado fino de Alexandra apressou-se, coincidindo com o olhar baixo de quem foge aos pedidos de ajuda muitas vezes contaminados pelo comentário ordinário do género superior.

Querida, onde vais com tanta pressa?”, ousou o delinquente de braços abertos e sorriso escandaloso.

A corrida diária intensificou-se a cem metros do seu prédio, onde, com aflição, Alexandra insistiu no fecho da pesada porta de ferro.

Sem atributos extraordinários de sensualidade, a mulher a rondar os trinta vivia enterrada em momentos semelhante invasão.

À noite, fazia de si uma linha recta em movimento, encolhida sobre um corpo treinado que queria fazer desaparecer sobre a convicção da sua segurança.

De dia, devorava degraus e passeios com a fome tremenda pela invisibilidade.

Não é que sentisse a vulnerabilidade enquanto condição protética da sua feminilidade, mas a força feminista que arrastava parecia-lhe, tão frequentemente, incapaz de enfrentar as bestas desbocadas que se julgavam no direito de vociferar o seu prazer.

Sobre o sofá axadrezado que mantinha há mais de uma década, ruminava os dias em que, na sua pacificidade habitual, acolhera a certeza de um agrado masculino entre uma primeira satisfação que pela recorrência, rapidamente, se tornara num verdadeiro assalto à sua individualidade.

Para ouvir: Feathers de Poppy Ackroyd

 

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