Every Thing Will Be Fine: um desastre melancólico

James Franco protagoniza a mais recente longa-metragem de Wim Wenders, Every thing will be fine, a perspectiva calada, densa e impressionante de um trauma inspirador.

E eis que acontece o improvável: da mais séria aversão nasce uma admiração interessante ao trabalho de Franco, cuja actuação em Every thing will be fine tenta – embora quase em vão – levar este barco melancólico a bom porto.

Numa tarde gélida, Tomas Eldan (James Franco) causa, acidentalmente, a morte de uma criança que atravessa a estrada congelada que o levava a casa.

Eldan, escritor de profissão e marido pouco atencioso, mergulha, a partir desta tragédia, numa profunda transformação aflitiva, experimentando a solidão do divórcio, o pânico do suicídio falhado e, por fim, o sucesso literário que a recém-adquirida bagagem emocional motiva.

O filme de Wim Wenders poderia ser, por isso, facilmente, um estudo audaz acerca da criatividade traumatizada de alguém que encontra nesse evento que destrói a família de Kate (Charlotte Gainsbourg) o passaporte para a profundidade artística que procurara.

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“Os seus livros melhoraram depois do acidente”, murmura Christopher (Robert Naylor), o irmão da vítima, dez anos depois.

Every thing will be fine é, todavia, uma experiência demasiado modesta para aspirar a essa reflexão.

O efeito do trauma não passa de uma pincelada num quadro, verdadeiramente, episódico, melancólico e, tendencialmente, irrelevante.

Embora repleta de detalhes cinematográficos deliciosos – desde logo, a fotografia da sequência inicial, a banda sonora de Desplat e a participação de Franco – o alcance narrativo desta fita faz dela um bem perecível que, rapidamente, perde a atenção do espectador.

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Gainsbourg, Naylor e Franco fazem, de facto, o melhor que conseguem com o tecido dormente que lhes é concedido.

Rachel McAdams, que encarna a primeira esposa de Tomas, oferece, por sua vez, uma actuação pobre e pouco convincente que agrava a natureza frágil deste melodrama.

Há, contudo, no protagonista de Every thing will be fine uma calma tão densa que intriga.

Tomas é, antes de mais, imune ao tempo. 

De olhos quase sempre semicerrados, o escritor evolui num espaço de 14 anos sem uma única ruga para o comprovar.

Às suas costas, Tomas traz agora o prestígio literário que o dignifica.

É, porém, no seu silêncio e no tratamento do perdão e da superação que está a genuína pérola desta obra.

O filme de Wenders corre o risco de aborrecer o espectador, é certo, mas a apresentação de um desastre melancólico quase livre de som e confiante nas imagens consegue, definitivamente, deslumbrar.

Every thing will be fine é, portanto, uma possibilidade muda de revelar um curioso mundo interior estimulado pelo choque e pela dificuldade.

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