Filipe ou vítimas colaterais de um drama

Cheirava a suor, canela e orvalho. Os olhos embaraçados pela pestanas sujas procuravam a luz da manhã em vão. Filipe rodou sobre si, num estreito banco de jardim, mesmo antes de sentir a faca penetrar-lhe a alma.

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A avenida larga acomodava os raros viajantes, que aproveitavam o ar gélido da capital para refrescar as memórias.

De um lado, um desfile infindável da riqueza absurda; do outro, a fila incomestível de bancos verdes ocupados por homens-plástico preto garrafa.

Filipe dormia, agitado pela bebida, no início da calçada, experimentando a dormência mole que a dose sobresselente lhe concedia.

Mais uns trocos na algibeira, mais umas horas de sono”, mastigava, entre a barba interminável e a sua pele curtida pelo vento, pelo frio e, sobretudo, pela ausência de limpeza.

A rua estava calma, quase muda. O ócio era permitido aos que folgam da miséria nas estradas do luxo.

Ao longe, um colega da vida perdida percorria o passeio em ziguezague e euforia.

Filipe cobriu os ombros com os sacos pretos que há muito formavam a sua capa dos dias comuns.

De olhos fechados, tentava abandonar-se à meia luz que as primeiras horas da correria metropolitana permitiam.

Cheirava a aproximação daquele monumento de peixe, lágrimas e ferrugem. Escutava os passos do casal que cavalgava não muito longe do seu refúgio improvisado.

“Olá, querida”, ouviu o homem-lixo dizer.

Os berros frágeis de uma mulher de pouco mais de vinte anos interromperam a sua viagem à ausência da precariedade que tomara como estilo de vivência.

“Não fujas”, disse o delinquente. “Deixe-a”.

O mendigo recuou uns passos com o embate do homem musculado, mas não o suficiente para se sentir demovido da sua conquista nojenta (um pouco de prazer no estado de levitação e decadência que só aquela experiência pode garantir).

Filipe ouviu a nova investida, o murro que, entretanto, voara e a nova tentativa que, estava certo, motivaria uma resposta muito mais agressiva por parte do insultados.

Cheirava a suor, canela e orvalho, sabia-o.

Não era, exteriormente, muito superior ao animal vil que ousara violar a tranquilidade daquela mulher.

Sentia-se, contudo, a milhas de distância daqueles bêbedos que cediam ao liquido, pejados de alegria e excentricidade.

Sabia os goles exactos para o adormecimento. Conformara-se à vida da rua, do frio e dos insultos por incapacidade económica, não por – jamais por – vontade sua.

Virou-se sobre si, forçando os ombros a romper o casulo de plástico que criara.

Percebeu, neste instante, uma faca que lhe trespassara o centro, erradamente colocado num corpo que não o intencionado: o do violador.

O homem de enormes olhos verdes tremeu, retirou a arma e seguiu o seu caminho, arrastando impune a companheiro do crime.

O colega de profissão evaporou-se em busca de uma nova vitima.

Sobre o banco verde escuridão, Filipe desperdiçava os últimos fôlegos no desejo de nunca ter sido atirado para a rua por um desemprego cruel que transformara o operário modesto, mas respeitado, no objecto descartável, removível e substituível de uma cidade que se engolia a si mesma sem perceber.

Para ouvir: Summer days de Kai Engel
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