Spectre é uma viagem melancólica e antiquada

Daniel Craig protagoniza, pela última vez, a nova aventura do agente secreto mais elegante do mundo. Spectre de Sam Mendes é uma viagem nostálgica que promete exceder o seu passado, mas dificilmente agarra o espectador.

A informação é tudo“, explica Blofeld (Christoph Waltz) a Bond, numa visita às suas instalações, concretizando o tradicional comentário ao seu plano maléfico mesmo antes de tentar eliminar o agente secreto.

Spectre de Sam Mendes é uma incursão corajosa ao mundo da vigilância informática.

M (Ralph Fiennes) confronta-se, desta vez, com C (Andrew Scott), um novo dirigente dos serviços inteligentes britânicos que deseja substituir o programa de agentes 00 por um sistema de controlo electrónico multi-nacional.

Na nova longa-metragem da saga Bond, vários são os ecos do caso Snowden e da sua luta pela revelação do intrincado poder norte-americano na vigilância de todo o ambiente digital.

A fita de Mendes lança-se, assim, numa proposta fascinante que, rapidamente, esmorece face à complexidade desnecessária das ligações passadas entre Bond e Blofeld.

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A Spectre falta, além de tudo, a sofisticação cinematográfica – sobretudo, fotográfica – que fizera de Skyfall (2012) uma verdadeira obra-prima.

Se a sequência inicial, passada na agitada cidade do México no Dia dos Mortos, faz adivinhar um filme pensado e construído com a mestria rítmica e imagética de outros tempos; o regresso a Londres e toda a acção subsequente faz desmaiar essa expectativa, concentrando-se no uso banal de planos médios e gerais que pouca atenção concedem ao detalhe.

Spectre sofre, efectivamente, de uma qualidade nostálgica, quase melancólica, que o enterra num guião e numa realização demasiado antiquados para conseguirem agarrar o espectador.

És um papagaio de papel a voar num furacão, Bond“, repete Blofeld, mas, na verdade, é o espectador quem se sente à deriva, entre enredos paralelos e contextos, apenas, actualizáveis em retrospectiva.

Spectre é um filme de intrigas exageradas, onde desfilam figuras e representações magistrais.

Craig, Waltz, Fiennes e Scott são estrelas incontornáveis, poderosas.

As suas representações atraem a atenção do espectador desiludido, colmatando algumas das falhas estruturais com o seu magnetismo extraordinário.

Léa Seydoux, que encarna Madeleine Swanm, é, por sua vez, igualmente, competente, embora falte à sua personagem a nuance digna de um filme que, pela primeira vez, tenta não objectualizar as mulheres.

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Por último, a espécie de genérico característico desta saga é, em Spectre, um tremendo erro.

Writing’s on the wall de Sam Smith é, antes de mais, profundamente, inferior a Skyfall de Adele.

É, todavia, na desconexão hiper-sexualizada desta sequência que reside o verdadeiro problema.

A eliminação destes 10 minutos contribuiria, estou certa, para a saúde do filme.

Ainda que inconsistente – entre uma grande abertura, enormes representações e histórias demasiado exigentes para um mergulho total – Spectre encerra décadas de acção e elegância e, por isso, não pode ser perdido.

A felicidade final sabe, contudo, a muito pouco, consolidando um dos romances mais mornos do agente secreto.

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11 pensamentos sobre “Spectre é uma viagem melancólica e antiquada

  1. Eu acho que o filme nem sequer tenta não objetificar as mulheres. Aquela sedução da recém-viúva da Monica Belucci é, para mim, moralmente repugnante, e não foi nada mais que fanservice masculino no seu pior. Fora isso; crítica spot-on.

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    1. Sim, tens razão. A sedução daquela mulher no México, a viúva italiana e a própria sequência musical em que Bond aparece no centro do grupo de amantes são sinais dessa fanfarrice, mas parece-me que a Madeleine é das primeiras personagens femininas a ser tratada com maior dignidade (embora seja bastante desprezada).

      Qual é o teu filme preferido da saga?

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      1. Sim, a Madeleine não é tão desprezada quanto o resto. Apesar disso, aponto a Vesper Lynd do Casino Royale, o meu favorito do Craig, como a única Bond Girl perfeitamente realizada. É a que tem o maior impacto emocional no Bond até à data, pelo menos a meu ver 🙂 E o teu?

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      2. Gosto do Skyfall, sobretudo porque o vilão é genialmente perturbador ahahah
        Não te parece estranho que o Bond acabe com uma das personagens femininas menos intensas da saga? Não fiquei muito convencida/agradada com este final. Ele até pode ter desistido da espionagem, mas acho difícil ter desistido da sedução, muito menos por uma relação que é mais paternal do que romântica…

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      3. Eu acho que o filme foi apressado, principalmente no que toca ao guião, portanto nem olho para a narrativa como algo propriamente lógico. O filme foi mais um veículo publicitário do que propriamente uma peça de cinema.

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      4. Pois, infelizmente, a intensificação publicitária é bem visível, mas sendo o fim de uma das personagens mais icónicas dos últimos tempos (sei que, supostamente, seguem-se mais filmes, mas não estou a ver como), penso que mereceria muito mais.

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      1. É um homem mais “comum” mas que, atendendo à época, não deixa de ter o seu charme. Pessoalmente, gostei do guião mas a maioria parece que não :/ Como disse, é um Bond mais humano e real. Tanto que acaba por se apaixonar e casar. Só que… (até o final é ao meu estilo!)

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