Infortúnios desejáveis ou a vida é um acidente

Miava a manhã em surdina. Na estrada que lhe pilharia a existência conhecida, oferecendo-lhe o fel e a improbabilidade lisboetas, Bianca encontraria esse bem roubado que é a ânsia dolorida de uma verdadeira alma gémea.

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No fundo da rua, um gato negro esticava a sua silhueta num atraente redondo matinal.

Sobre o azul celestial do nascer do dia, amontoados de humidade cor de rosa hipnotizam o olhar.

As mãos magras e deformadas de Bianca contraíam-se, afetadas pela rispidez da temperatura inédita que só as manhãs lisboetas sabem guardar.

A ideia ridícula de combinar calçada polida e folhas caídas”, resmungava a mulher de 40 anos, equilibrando um par de saltos grossos jamais adequados à armadilha que a capital, humoristicamente, lhe preparara.

Ao ombro, um saco de responsabilidades, formulários e frequências; na mão, um chapéu de chuva, verdadeiramente, papal na sua dimensão.

Espreitou o semáforo, tendencialmente, imutável na sua rara generosidade esverdeada.

“Hoje vai ser um grande dia”, correu, repleta de convicção no poder das suas pontas dos pés.

Ouviam-se buzinas, o apito surdo do sinal e a maratona dos atrasados do costume. Escutavam-se os passos agudos das botas e o tilintar dos autocarros até se perceber o estrondo que a queda de quatro décadas provocara.

Bianca desatou a rir, num profundo momento de estupidez infantil. Torceu o pé, tentando avaliar os danos daquele acidente.

“Agora é que não chego a lado algum”, mastigou já mais séria, antes de se alarmar com a mão jovem que lhe invadiria a intimidade do regaço.

A criança com pouco mais de 20 anos corria agora estrada fora com a sua mala, numa malfadada decisão de acentuar o embaraço pouco lucrativo daquele dia.

Bianca tremeu de pânico. Em pé, cambaleava, incapaz de tomar uma decisão.

A cidade movia-se ao ritmo insano do hábito enraizado.

Os colegas de viagem passavam como miragens absortas no mundo repetitivo das sinfonias escolhidas ao pormenor, incapazes de perceber o que lhe acabara de acontecer.

A figura azulada daquele monumento musculado de autoridade dançava ao longe, junto aos portões pouco imponentes do jardins.

Com esforço, explicou-lhe uma manhã para a qual não estava, mentalmente, preparada.

“Desculpe, minha senhora, mas sou, apenas, guarda do jardim. Tente a esquadra”, informou o raio súbito e perecível de auxílio.

Bianca escutava o batimento cardíaco acelerado na base escondida da sua orelha direita. A sua enorme testa doía de tensão.

“A esquadra é onde?”, ousou. “É já ali à frente. No edifício castanho. Não deve ter qualquer problema a encontrá-lo”, sorriram-lhe os olhos verde-lima do salvador da nação bucólica.

Bianca sentou-se no banco metafísico do seu pensamento, percebendo a inutilidade de  tal caminhada.

A faculdade era já ali: a dois passos do local sagrado da sua queda à Terra.

Empenhou a sua energia nessa conquista, esperando encontrar nos rostos diários o carinho extraordinário da anuidade.

“Sente-se bem, professora?”, quis saber o aluno de barba grossa e olhar da mesma cor que aquela manhã.

“Infortúnios”, respondeu-lhe sem saber como se relacionar com o outro lado do seu púlpito.

“Foi assaltada”, concluiu sem reserva o rapaz que se podia reconhecer afinal bem mais velho do que a infantilidade universitária.

“Exactamente”, adiantou, demasiado fatigada para a conversa de circunstância, que nem nas melhores ocasiões alinhavaria.

“Tem de começar de imediato a cancelar os cartões roubados”, incitou o homem, cujos músculos bem cuidados deformavam o ar colegial da sua malha vivida.

Miguel encostou-a à esplanada, sem pedir a concordância da vítima, cedendo-lhe um telemóvel e pedindo dois cafés, esquecido dos seus próprios compromissos.

Confessar-lhe-ia, nesse mesmo dia, numa ocasião mais tardia em que apreciavam o calor do almoço e da libertinagem espontânea, a vontade de lhe examinar o cérebro ao detalhe.

Bianca, jovem na sua experiência pouco povoada, percebera nele uma passagem ao passado recente que, durante anos, recusaria largar.

Congelados, numa capital em ebulição, Bianca e Miguel perceberiam a urgência desse povo imparável no consumo cego das suas rotinas em função dos momentos infinitos que os uniriam [até ao divórcio] na mais perfeita degustação físico-intelectual.

Para ouvir: Written in the stars de Max Richter
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