A besta que os media amamentaram ou #Paris

O pânico da Paris de 13 de Novembro invadiu-nos a alma. Levados ao centro do terror, fomos espectadores passivos de uma operação mediática que, em boa verdade, exacerbou sem pudor o efeito mortífero desse fanatismo desumano.

A rose placed in a bullet hole in a restaurant window the day after a series of deadly attacks in Paris, November 14, 2015. The note reads

Fechei as janelas com urgência. Tranquei as portas com a violência desajeitada de quem teme pela sua própria vida.

Estava a mais quilómetros do que podia imaginar do centro do terror, mas ainda assim sentia o tinir parvo dos tiros à flor da pele.

Paris estava longe, o aparato tinha terminado, após quatro horas de intenso jogo mediático, mas, tolhida sob o fantasma sangrento daquela noite, percebia a emergência aterradora da vulnerabilidade que, há pelo menos uma década, se tem tornado flagrante.

“Estamos tristes, chocados…”, repetiam os estados facebookianos e as comunicações à imprensa que se multiplicavam sem a força necessária.

“Estamos tristes?!”, gritava o meu ego revoltado.

A tristeza é um estado passivo de lamentação que não pode ser adequada a uma guerra em curso que nos coloca um alvo nas costas e nos faz desejar o alargamento da migração à realidade intergaláctica.

Depois, veio a enchente de xenofobia meio informada, ateando os refugiados que procuram asilo daqueles que hoje nos perseguem e inflamando o diálogo inter-religioso que, precocemente, tentávamos cultivar.

E pensar que, há pouco mais de uma semana, lá estava eu a espreitar a oração coada na mesquita que bate no coração de Lisboa; a reportar a integração de uma comunidade que, durante anos, vi fervilhar nas ruas.

Prisioneira do paralelepípedo bege que é o meu lar lisboeta, estava ciente de que a calmaria que observara nessa minha invasão não voltaria a ser a mesma.

Imóvel, vi discorrer o horror ao segundo, comprovando, pela primeira vez, o poder imenso do directo digital, do renascimento do sensacionalismo e da exploração lucrativa dos media.

O feed sobrepopulado do meu Twitter emprestou a Paris o pânico monumental de quem vive, em primeira mão, o terror. 

Repetiam-se títulos, declarações, contagens e actualizações, mesmo quando pouco havia a noticiar só pelo gozo frenético de não deixar o assunto morrer.

Vi “Paris” e “Estado Islâmico” competirem com uma qualquer referência a Selena Gomez na barra lateral de popularidade.

Estava aterrada pela cidade que amara, pelo mundo e, sobretudo, pela caça inacreditável que os media insistiam em promover.

“Que barulho de sirenes”, comentava, do outro lado da telemática, uma amiga empenhada no streaming do acontecimento.

Estávamos, indubitavelmente, na corrente sanguínea de um atentado que, sem cessar, nos escancarava as portas.

À sofisticação digital que quase suavemente concedemos aos terroristas juntou-se sem piedade a nossa fome por detalhes.

O directo televisivo tornou-se, concluí com a maior das convicções, numa possibilidade ridícula face à imediaticidade hipermedia.

Aos seis anos, vi cair o mundo pela televisão, naquele fatídico 11 de Setembro.

Aos 20, presenciei o início de uma guerra há muito anunciada que, pelos holofotes insanos das redes sociais, se tornou numa realidade intima, doméstica incapaz de ser ignorada.

Dezanove horas após essa primeira publicação, saí, finalmente, à rua, consciente do medo e da arritmia que subsistiram a segurança do costume.

“Qual é a tua opinião do que aconteceu ontem, enquanto jornalista?”, experimentaria, minutos depois, o meu pai, numa tentativa matreira de me apanhar em falso a defender o encanto do mantra bad news is good news.

“Tenho a certeza de que hoje se venderam muitos jornais, se é isso que queres que te diga, mas foi ontem que se viveu a verdadeira selva”, suspirei, cansada.

Paris da sexta-feira 13 foi um ato arbitrário de desumanidade, mas jamais me peçam para aceitar a incredulidade que moveu o mundo digital nessa ocasião.

Como podemos nós fechar os olhos com tanta facilidade a Beirute (uns dias antes) ou à Síria, quando nos dizemos tão revoltados com esse mesmo vilão momentos depois?

A resposta é simples. A proximidade é um valor-notícia extraordinário num mundo curvado sobre o seu próprio umbigo.

Uno o meu semblante caído ao vosso, lamentando, profundamente, o sucedido, mas mais do que tristeza, sinto a insegurança de uma realidade que cavalga na minha direcção não sem aviso (daí a tristeza ser insuficiente), mas sem um verdadeiro inimigo à altura.

A ignorância é a raiz de todos os males, a insegurança de todos os poderes. 

Caberá aos media, por isso, não o cultivo rentável desse sentimento letal de impotência, mas a luta informada pela liberdade.

Peço-vos, façamos menos sensacionalismo, mais informação.

Se, horas depois, discutíamos o perfil da banda em questão, somente, para evitar o falecimento da ansiedade, no dia seguinte teríamos, com certeza, a obrigação de traçar semelhante trabalho em torno dos carrascos, da situação e da estratégia bélica.

A imediaticidade é um dom incomensurável, meus caros, mas não se deixem enganar pela superficialidade dessas peças de 140 caracteres.

Andamos a amamentar esta besta que nos degola sem pudor. Não estará no momento de lhe mostrar que a nossa energia serve para mais do que para ser um veículo esfomeado? 

PS: Não foram usadas imagens dos atentados por respeito à dignidade das vítimas e à privacidade dos seus familiares.
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