Experimenter: somos todos marionetas conscientes

Michael Almereyda [re]imagina a investigação polémica de Stanley Milgram numa fita elegante e surpreendente. Protagonizado por Peter Sargaard, Experimenter é uma recomendação absoluta para os amantes das incursões do cinema no teatro, na psicologia ou, simplesmente, na factualidade.

A natureza humana pode ser estudada, mas não ultrapassada“, comenta Stanley Milgram (Peter Sargaard) num dos muitos apartes transportados, directamente, dos palcos de Brecht para o interior do filme de Michael Almereyda.

Experimenter é, na verdade, um percurso, artisticamente, interessante acerca do estudo controverso, que, nos anos 60, ousou permitir aos participantes a descarga de choques eléctricos nos colegas em suposta observação.

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A investigação de Milgram, cuja relevância se estende até aos dias de hoje, procura, contudo, não estudar os modos de punição como estratégia educativa, mas explorar a maneabilidade da obediência humana.

A conclusão? Somos todos marionetas cientes dos fios que nos manipulam e, ainda assim, hipnotizadas pelas ordens desse mestre todo poderoso, que pode, em toda a sua inocência, ser o estranho com quem nos cruzamos, diariamente, no caminho para o trabalho.

A obra de Almereyda é, além de tudo, especial.

Milgram explica, serena e directamente, ao espectador que o Holocausto, do qual foram vítimas os seus pais, o levou àquela área de estudos, onde a ética passeia num limite ténue e os resultados revelam uma condição humana pouco atraente.

Arendt e a sua Banalidade do Mal são, de resto, frequentemente invocadas, à medida que se relembra Eichmann como perpetuador passivo de um regime sobre o qual não tinha qualquer poder efectivo.

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Almereyda pressente esta entoação constante que é a irreversibilidade do Homem, propondo analepses, cenários bidimensionais e  campos estranhamente compostos como estratégias de desconstrução da linearidade aparente da nossa existência.

Sargaard encarna, de forma soberba, o papel de psicólogo tranquilo com seus escrúpulos duvidáveis, seduzindo o espectador nos monólogos [quase] narrativos que nos conduzem e amarram entre tempos e espaços díspares e assíncronos.

O detalhe em Experimenter é brilhante.

Do 1984 de Orwell que a transeúnte lê na estação de comboios e que, mais tarde, colocaria Milgram nas bocas do mundo, ao elefante que se passeia na profundidade de campo sem pudor do irrealismo, passando pela introdução fina das imagens de arquivo até ao automóvel exuberante que, pouco depois, seria vendido e que, por isso, passaria a significar esta falsa partida profissional, Almereyda excede a lógica documental.

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A teatralização é uma constante que quebra a quarta parede e arrasta o espectador para o espaço intimo do quotidiano de Milgram.

A qualidade mais admirada desta fita pode muito bem ser a sua capacidade de, desde o primeiro plano até ao último segundo, conseguir interpelar o espectador de forma abrasiva, mas vive na construção inteligente deste guião o seu verdadeiro tesoiro.

Sarsgaard contracena com Winona Ryder numa genuína peça de teatro cinematográfica que aproveita a especificidade do meio para nos levar até onde nunca poderíamos ir: ao pormenor.

Experimenter é, portanto, um exemplo a seguir de re-imaginação biográfica, que, no seu âmago, recorda e enaltece a observação de Kierkegaard repetida na sua duração:

A vida só pode ser compreendida em retrospectiva, mas só pode ser vivida em perspectiva.

Também o filme de Almereyda sofre desta patologia, exigindo, constantemente, ao espectador a actualização de espaços e tempos que se interrompem, repetem e recordam.

Experimenter é uma experiência [cinemática] fascinante que, aliada ao legado incontornável de Milgram, não pode ser perdida.

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