A felicidade não tem porquê ou abrande

Roda a cidade, lentamente. Voam as aves sem pudor, os homens sem maquilhagem e as mulheres sem conforto. Roda a existência, a respiração e o trânsito, que, a esta hora, parece veias encardidas e pouco ritmadas. Voam os corações, tal como voou o de Matilde, até ao morrer do dia sagrado: aquele em que a felicidade deixaria de ser uma utopia infundada.

96c2bd510958eb618965970cfed1a760

No balcão arrumado do pequeno apartamento de Matilde, um gato bicolor miava, incessantemente.

“Bom dia”, disse-lhe ela, rasgando o rosto nu com um enorme sorriso.

O gato balançou o crânio peludo, lambeu os bigodes e voltou a miar. “Anda cá”, gargalhou a idosa, revelando a taça de atum que preparara em concordância com o seu hábito matinal.

Sentou-se na poltrona de palhinha carcomida, deixando a atmosfera gélida do despertar lisboeta entorpecer os seus sentidos.

“Mais um dia, bichano, mais um dia”, comentou, atirando ao animal um trejeito de felicidade desenquadrada.

Recolheu a taça de porcelana estampada, expirou uma outra lufada de energia e prosseguiu na sua manhã para logo se vir prostrar ao largo do prédio, escutando os passos dos estudantes atarefados rumo à reitoria.

A rua tresmalhada animava-a. Ela abandonada à idade de ouro, sem nada para fazer, perfeitamente satisfeita com um passado extinto, lá ia apreciando o passar veloz dos dias.

“Tem meia hora para mim?”, seduziu-a uma jovem morena de mochila ao ombro e botas preparadas para uma geada imaginária.

Pestanejou, sem perceber. “Preciso mesmo de ouvir a sua história”, disse-lhe Inês, apostando na aura estranha dos coleccionadores de almas.

“Desculpe?”, questionou Matilde, de rímel extravagante e lã gasta.

 “Preciso mesmo de ouvir a sua história. Parece tão tranquila numa cidade de bestas afogueadas. Qual é o seu segredo?

Inês era um monstro raro, soube Matilde desde esse primeiro momento improvável.

Nos anos que passaram juntas, entre frequências, relatos de festas de excessos e amores mortíferos e redundantes, derramaram as suas essências nos sofás empoeirados verde esmeralda que todas as manhãs o café forte queria contaminar.

Nos dias finais da existência resumida dessa jovem beijada pelo azar da patologia cancerígena que mais amarra génios ao outro mundo, Matilde viu brilhar nesses olhos a compreensão verdadeira – o seu legado – da felicidade.

Não é que o gosto pela inalação automática de oxigénio seja uma atracção natural ou irreversível.

É que, disse-me ela uma dia à saída da faculdade, os minutos são demasiado fugazes para não serem dedicados à contemplação pacífica – enfim, feliz – desses mundos em ebulição.

Depois de uma aventura o mais comprida que permitir a sua saúde, aconselhou-lhe ela (a mim e à doce Inês em sofrimento), sorria ao universo, esquecendo os planos de vingança que, diariamente, congemina contra o seu fado.

“Seja feliz sem demoras nem porquês”, retorquiu Matilde naquele início malfadado de uma relação tão rica que a capital estremeceria sob a sua sabedoria, pronta para abrandar, mas tão absorvida no seu próprio umbigo esquizofrénico que a velocidade não passava de um pormenor insano no seu estado de profunda depressão.

Roda a cidade, lentamente, aos olhos encantados de quem a aprendeu a mastigar de apetite satisfeito.

Voa a existência com o bater mágico das asas feitas capazes pelos anos.

Observam felizes os sortudos desprovidos do fogo da metrópole; repletos das chamas, violentamente, apaixonantes da preguiça concentrada, do privilégio do ócio.

Para ouvir: As she passes de Levi Patel
Anúncios

Um pensamento sobre “A felicidade não tem porquê ou abrande

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s