O machismo tem de parar de passar despercebido

Embriagadas com a euforia estratégica da igualdade prometida, lá vamos nós preenchendo quotas e fantasias. Prontas para lutar por mais, às massas vai chegando o doce adormecimento de uma era que se diz feminista, disfarçando um coração machista. Estaremos prontos para evoluir?

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Vamos parar de pensar que a fragilidade é uma condição feminina; que o poder tem de ser produto de um imenso trabalho assimétrico; que a cultura reserva uma porção vergonhosa do seu corpo aos produtos cor de rosa adaptados aos cérebros diminutos das suas consumidoras.

Vamos parar de pensar que são os músculos monumentais dos chefes de família que empurram o planeta no seu movimento diário de rotação.

“Ele transforma-na num objecto sublime de desejo, numa fantasia, e ela reconhece-o. O desejo, especificamente, humano é o desejo de ser desejado. É o que ela sente”, alinhava o meu professor acerca da magnitude genial de Hitchcock e Lynch, citando Lacan em toda a sua glória.

Eu contorço-me na cadeira precária, tentando concordar com a violência bárbara que se impinge sobre o meu género e que passa despercebida.

Em toda a verdade, o que me perturba não é a acção quase desculpável dos dois mestres filhos do seu tempo, mas a naturalidade que impregna, hoje, a aceitação desse anerkennung (reconhecimento).

Se o amor-paixão é uma ordem simbólica fundada na carência, porque jamais se coloca o homem nesse lugar vulnerável da coisa?

Se o desejo é nada mais do que uma ilusão mediada pela convenção, porque não aceitamos que a trivialidade que o sustenta, sendo o único prazer a que alguma vez teremos acesso, é suficiente?

O machismo tem de parar de passar despercebido por entre esses aguaceiros agressivos que, golpe após golpe, consolidam o lugar da donzela.

No início, éramos heranças passivas. Lutámos. Depois, silhuetas hiper-sexualizadas. Gritámos.

No final, potenciais donas do mundo. Adormecemos sem nos dar conta da espécie diária de discriminação que se infiltrou na nossa causa.

Hoje, regressamos com gosto ao segundo estágio, tentando, mesmo, aplicá-lo aos homens, que mantém, contudo, a sua dignidade máscula.

Ainda somos líderes rarefeitas, nas áreas que, realmente, interessam – ou melhor, nos domínios não mediáticos.

Ainda somos vítimas das expectativas retrógradas que, lentamente, nos obrigam ao trabalho, à maternidade, ao casamento e à limpeza a um ritmo inimaginável.

Na concessão gloriosa da autonomia laboral começou, sem pudor, essa ilusão que nos incute à nascença o desejo exaustivo de agradar, conquistar e destruir de avental.

O machismo anda por aí de trench coat e galochas, saltando nas poças prolíferas da chuva, fazendo piadas sobre o suor que se forma no nosso lábio superior face a vitória que a eles custa menos do que nada.

Bem vestido e de porte elegante vagueia, coroando os homens feministas, os domésticos e os verdadeiros parceiros, como se o esperado não fosse esse mesmo apoio.

Dedicamos os nossos “vivas” aos lutadores afincos pelos direitos das suas mulheres, deixando de lado, na escuridão dos bastidores, o fluxo real da existência: machista, obrigado e, ainda, profundamente, convencido do seu poder.

Pensar em quotas de dirigentes femininas não pode ser a solução nem a prova de um mundo mudado, porque enquanto nos virmos como envelopes a precisar de um selo de aprovação, cabeças a concretizar uma fachada liberal e sortudas estaremos, irrevogavelmente, enterradas nesse reino dos homens.

Até à afirmação imperceptível da condição humana – não feminina ou feminista – aguardámos de punho no ar e desconfiança ao rubro, prontas para moldar as gerações vindouras e essa ordem simbólica que, tão docemente, me explicam ser a responsável pela objectualização distraída das mulheres!

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