À deriva não ficamos ou os finais aborrecem

O crepúsculo insinuava-se nas cortinas empoeiradas que Simone insistia em manter. Sobre um sofá esmeralda, a figura pálida do seu cadáver assistia ao correr do tempo, relembrando aquela perfeita tarde que, finalmente, lhe levara a overdose aos lábios.

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“É hoje que decides sair de cá?”, gritou Simone ao homem, aparentemente, empenhado na produção desmesurada de miolos.

“Preciso do meu espaço de volta, Henrique”, disse-lhe, agarrando o contorno definido do seu braço.

O sorriso carnudo do seu ocupa odiado inflamara o seu espírito. Arremessou o prato, cuja abundância de desperdício alimentar a irritara desde o início, e esperou uma resposta mais concreta.

“Saio, quando decidir que estamos acabados”, fitaram os olhos avelã translúcida.

“Nós já o decidimos. Há cinco meses, Henrique. Cinco meses! Não está na altura de passar a outra?”, explicou-lhe com a intensidade de um dependente em recuperação que se agarra à sua vontade como única tábua de salvação.

A pressa estava-lhe no sangue. Na ânsia da competência ideal, deixava-se cair no automatismo frio e genial, que, irreversivelmente, afastara todos os homens da sua vida até Henrique, essa besta de sarcasmo e arrogância.

“Talvez já não me encontres esta tarde. Encontrei a Inês ontem em casa do meu irmão”, gargalhou, esfaqueando o que restava de auto-estima no ser oco de Simone.

“Boa viagem”, cuspiu com convicção, farta de uma relação de qual se aborrecera, mas doente perante a substituição flagrante da sua peculiaridade pelos peitos redondos de uma outra qualquer opção.

Deixou Henrique à mesa da cozinha, a caminho de um dia de contas e estratégias que sustentariam a sua carteira, mas jamais a sua alma.

Sorriu para a vitrina, inspeccionando o seu aspecto pensado ao milímetro e questionando a inevitabilidade de um final trágico para a sua história.

De que lhe valia viver num círculo interno de momentos eufóricos e saltos disfóricos aterradores?

Para que respirava ela o ar do prazer para logo depois querer a privacidade da solidão, a rotina da individualidade?

Solitária, feliz e inadequada.

Um autêntico elefante num mundo de anões que, paradoxal e tão frequentemente, se sentia frágil ao ponto da rotura derradeira.

O metro rugia fortemente; o mundo desfilava de saltos anos e Simone sentia a exposição invasiva ultrapassar a sua camisola de malha grossa.

Percebia-se observada pela sua pequenez delicada de alguém escultural a quem ninguém reconhece sentido [a quem ela não reconhecia sentido].

Ouviu o rodar agudo da chave e esperou não escutar os passos pesados de Henrique, no final do dia.

O apartamento estava vazio: por fim, receptivo à sua visão de harmonia egoísta.

Abriu a gaveta, agarrou os soporíferos envoltos numa película esverdeada tão enfeitiçante e deixou-me deitar sobre o sofá que a sua grande avó lhe legara, terminando esse círculo ridículo de existência.

“Boa viagem”, repetiu com o mesmo tom seco que despejara em Henrique.

Fechou os olhos, sentiu o peso agradável das pestanas e adivinhou o sono sem sonhos que a utilização daquela arma costumava causar.

Esperou o adormecimento desse animal feroz e assustador que era o seu desespero, engoliu o último gole de ar – delicioso, pesado e aveludado – e caiu nos braços de um plano que durante cinco meses a permanência daquela relíquia de uma vida de tentativas falharas impedira.

Estava, felizmente, livre do mundo e da sua rotatividade absurda.

Para ouvir: Les nuits blanches de Bruno Bavota
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