A sorte não chega aos cépticos ou a ignorância feliz

Até onde nos leva a intuição? A sorte pode arrastar multidões até ao topo, mas pouco faz por sustentar esses lugares de poder. A lógica como remédio amaldiçoado de uma vida condenada ao delicioso sabor da aventura mal planeada. O conhecimento como antídoto; mas que espaço resta para a felicidade da ignorância? 

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A cidade estava engarrafada. Na rua principal, o trânsito do almoço corria, languidamente, no único sentido autorizado pela relíquia quase secular que se fingia de caminho.

“Eu acredito que a sorte somos nós quem a fazemos“, explicava eu à minha irmã, inconsciente do fabuloso pacote de surpresas que uma existência comprida tende a oferecer.

Rompíamos as pequenas multidões geradas pelo pânico habitual da hora esfomeada do descanso, conversando sobre a crise – que eu previa uma realidade ultrapassada no momento em que me visse obrigada a deixar o reino encantado das projecções – e o futuro, sobre os sacrifícios e o fluxo existencial peculiar que, naquela idade, desejava.

Separadas por oito anos e meio de experiências, sentíamos entre nós continentes de distância numa proximidade incrível que só a fraternidade e a predilecção pelo sem sentido da aventura sabem produzir.

Ela, com uma promessa em forma de aliança e uma imensa vontade de ser feliz; eu, com uma mochila sempre, extravagantemente, pesada e um arquivo de finais planeados.

Juntas devorávamos tardes de calorias mal planeadas, bijutaria brilhante, revistas e livros usados que um dia guardaríamos como minutos de uma vida extinta: tão tranquila e idílica como nunca.

Naquelas páginas que pagávamos sem sentido de economia fui descobrindo em mim um ser tão céptico quanto possível.

Um autêntico estratega que desenhava, congeminava e definia, sorrindo, levemente, àqueles que se julgavam embalados pelo aroma divertido desse mito que é a sorte.

“Detectar um erro não conduz, necessariamente, à sua correcção”, escreve, esta semana, Gray Matter, no The York Times.

A superstição e a racionalidade podem não andar de mãos dadas, mas será a sua reunião um paralelismo tão incompatível?

A intuição, esse guia que nos pontapeia na boca do estômago e nos corta a respiração, pode muito bem enfrentar a escolha lógica, mas será a reacção física que impinge suficiente?

Do alto da minha existência transformada, a paisagem parece bastante desprovida desse encanto colorido que é o sentido de oportunidade certeiro.

A aventura ou a espontaneidade, dois favoritos de longa data aos quais recorro sem reservas para evitar a loucura total da rotina, estão-me no sangue, entrelaçados num cepticismo maduro que me obriga a planeá-los ao pormenor.

Nessa idade, cronologicamente, próxima – mas, na verdade, tão longínqua – erguia-me contra o prazer (amarra desnecessária do humano) e contra a convenção que ditava um final agradável, sem saber que a racionalidade é uma maldição ao qual não é possível escapar.

Depois, comecei a fitar as páginas sobrepopuladas, a beber do néctar inebriante das vitórias, a abusar do efeito excitante do conhecimento, confiante no caminho higiénico que traçava.

A superstição, concluo, é dom próprio da humanidade adversa ao extremo jogo de poder que aplico aos meus dias. 

Entre uma lista que controla os minutos de pausa e as pilhas de trocadilhos filosóficos que me deixam na beira da cadeira, pouco espaço resta para essa besta utópica.

À sorte desejo boa viagem, triste por ver partir um analgésico tão popular e massificado que, por certo, deve ser eficaz.

Mergulho, antes, num universo lógico que me deixa [ironicamente] à deriva entre o questionamento da própria realidade e a dúvida terrível da existência.

Acredito mais no valor do trabalho, desconfio do peso da corrupção, e abomino essa máquina de fazer sortudos que é a combinação nojenta de preguiça, arrogância e graxa.

Para ouvir: To build a home de The Cinematic Orchestra
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