The Intern: A precariedade não tem fim?

Seis anos depois de It’s complicated, Nancy Meyers volta a oferecer-nos uma grande dose de cinema confortável. A sua nova longa metragem, O estagiário, promete ficar-se pelo esperado, mas arrisca um discussão séria. A precariedade é, afinal, para sempre?

Aos 70 anos, Ben (Robert De Niro) está aborrecido com a sua rotina de funerais semanais, amores recorrentes e refeições cuidadas.

Na final da sua vida, o homem de charme atemporal decide transformar-se em estagiário, realçando a imortalidade desse ciclo de precariedade laboral que hoje vivemos.

Quando nem na terceira idade conseguimos uma ocupação séria, há, certamente, algo de, profundamente, errado na lógica corporativa.

O mais recente filme de Nancy Meyers, a rainha do cinema confortável e dos protagonistas de classe média e grandes corações, arrisca, por isso, e sem querer, uma discussão inflamada que não podemos ignorar.

Ben trabalha como assistente de Jules Ostin (Anne Hathaway), fundadora de uma popular start up do ramo da moda, que, rapidamente, lhe apresenta a realidade amarga da sobvalorização associada a esse cargo temporário.

Jules, que ao início, ignora o estagiário, acaba por encontrar em Ben, uma mescla interessante de ama, motorista e conselheiro, que salienta a sua fragilidade e nos faz duvidar do fundo feminista desta longa-metragem.

“O homem está há 40 anos nos negócios”, relembra a empresária, num momento de carinho e respeito pelo ancião, a quem jamais são atribuídas tarefas significativas.

Ben, que dirigira um departamento responsável pela produção de listas telefónicas, está ultrapassado; mas a experiência nunca envelhece ou assim apregoa o cartaz enganador desta obra de Meyers.

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De Niro faz deste um protagonista agradável. Qualquer outro actor, enterraria-o na banalidade. 

O seu cuidado fato e gravata ou o lenço que traz no bolso constituem detalhes felizes da caracterização de um homem que ainda tem muito para dar ao mundo, embora insista em trocar a rotina por uma outra coreografia mais ou menos morna.

Hathaway encarna a jovem adorável do costume, lacrimejando e sorrindo, genuinamente, com todo o seu coração.

Jules é uma doce confusão: negligenciada pela mãe, traída pelo marido, obrigada a encontrar um presidente capaz de a ajudar a gerir a empresa que criou e, finalmente, devota ao estagiário que nem queria orientar e que acaba por transformar no seu melhor amigo.

Bem sei que se trata de um ambiente informal de trabalho, mas não será excessiva esta relação platónica que, muitas vezes, designa Ben por superior?

“Não queria ser eu o feminista…”, comenta o estagiário, recostado no quarto de hotel da jovem empreendedora: e não o é!

Jules exagera na carga de trabalho que digere enquanto o seu marido faz de dona de casa e pai a tempo inteiro.

Meyers anuncia uma relação funcional própria do século XXI, até cair no cliché da traição e da vulnerabilidade feminina – as mulheres acabam sempre por chorar – que obriga os [verdadeiros] homens a andar de lenço e falinhas mansas preparadas.

The intern (ou O estagiário, na tradução portuguesa) é incoerente.

Ora prefere [e abusa de] clichés, ora deixa-se cair em contradições que nem o mais distraído dos espectadores deixa escapar.

Dos muitos filmes de Meyers, este é, por certo, o menos animado, confortável e arrebatador.

Falta-lhe o humor de Something’s gotta give, a sedução de It’s complicated, a magia de The Holiday. 

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2 pensamentos sobre “The Intern: A precariedade não tem fim?

    1. A realizadora é conhecida pelas suas comédias românticas, mas neste fica-se por uma relação platónica pouco profissional que me confunde um bocado.
      Não é que o De Niro esteja mal e até há bons momentos no filme, mas é que, no final, pouco amor às personagens é conseguido…

      Gostar

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