A tranquilidade já era ou a paz armadilhada

Sentia o peso velado do meu corpo sobre a superfície mole alugada. Na manhã em que me encheram o peito de balas poderosas, percebi a tua ausência com lenta e dolorosa precisão. Onde estavas tu?

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O alarme gritante da rotina diária que um salário modesto me obrigava a manter despertou os meus sentidos imersos num longo e relaxante momento de inexistência.

Sobre a almofada, o meu queixo mal aparado e descaído anunciava uma noite tão bem dormida como há meses não experimentara.

Movi, cuidadosamente, as pernas, ainda de olhos fechados e com a alma a bater a mil na sua dormência pouco acostumada.

Temia que me gritasses o costume: “Adão, não tenho que acordar de cada vez que decides que é um bom dia para ir trabalhar”.

O silêncio que a minha fuga sempre estratégica e atrapalhada motivou deixou-me sobressaltado.

Não te ouvia e o peso que, repetidamente, moldara o meu peito ao colchão ruidoso da aventura juvenil imprimira, somente, a marca do hábito (não a real).

“Sara”, chamei sem receber uma devida resposta.

Percorri os corredores curtos e mal iluminados das sete da manhã na nossa confortável residência sem encontrar indício de um outro habitante que não eu próprio, agora de roupão e pantufas na entrada concorrida do prédio.

Investiguei armários e gavetas, na vã esperança de estar iludido pelo relaxamento das parcas, mas infinitas, horas que conseguiria digerir.

Actualizei com sucesso a ideia da tua partida, no rápido momento anterior àquela invasão que, em dois minutos, acabou com a minha vida ou pelo menos com a minha existência como sempre a concebera: livre.

“Encoste-se à parede com as pernas e os braços afastados”, gritou-me, não muito depois, uma figura alta, negra e forte: armadilhada (muito mais do que armada).

“Estamos a tentar encontrar a agente Mafalda Ribeiro”, explodiu o homem, enquanto apalpava as extremidades pouco aconselháveis da minha silhueta, matinalmente, nua.

“Não mora aqui nenhuma Mafalda”, interrompi-o, antes de receber um murro como resposta e compreender que não estava ali para informar, mas para corroborar num caso onde, à partida, o culpado teria de provar a sua inocência.

“Não mora aqui…”, insisti.

O homem agarrou na massa franzina que, por vezes, designara de corpo e arrastou-me até às escadas de serviço.

“Vai ter de me acompanhar. A partir de agora, será testemunha de acusação do Ministério Público contra a espiã Mafalda Ribeiro, alegada terrorista ou, pelo menos, a tentar sê-lo”, sussurou-me no centro da carrinha disfarçada que corria pelo trânsito escandaloso da capital do mundo.

“Não conheço, nem nunca ouvir falar de nenhuma Mafalda”, retorqui, certamente, estúpido perante o despertar forçado.

“A sua querida Sara, certamente, discordará desse conhecimento”, sorriu-me o homem.

“Onde está a Sara?”, perguntei-lhe de olhos semi-cerrados. “Oh está bem guardada na companhia dos outros cônjuges solitários até que o julgamento termine. Estamos numa missão de paz, é claro.”

“É claro”, repeti eu, mordendo o fel que as palavras tinham feito libertar. “Que irão fazer a essa terrorista?”

“Muito bem, a assumir a verdade”, gargalhou a figura. “Que irão fazer com ela?  O que é que está em jogo?”, ousei, furioso.

“A execução fica por nossa conta. Os serviços secretos precisam de ser domados de tempos a tempos. Você sabe, rotinas de manutenção.”

Os meus olhos, suponho, assumiram a estranha capacidade de expelir raios lazer tal era a fogosidade que sentia borbulhar no meu mais intimo átomo.

“Quê? Julgam-me um instrumento tão manipulável?”, berrava o meu ego frustrado e sem voz.

“Andámos a recolher dados na redes. Tenha mais cuidado, Adão. Desta vez, terá a sua liberdade de volta, para a próxima…”, piscou-me o olho a besta.

Em chamas e quase sem ar, virei o rosto, pensei em Sara numa qualquer prisão escura e sobrepopulada no calor daquele lugar e decidi que o melhor era escapar o mais rapidamente possível ao sistema.

Como? Obedecendo à sua megalomania, agendando uma nave espacial para um universo alternativo e rezando para que, nessa possibilidade, a liberdade não fosse um bem coado pelos grilhões do poder, da conveniência e da maneabilidade dos homens comuns.

Para ouvir: In the shaddow of the Colossi de Doug Kaufman
Mais: 36 Brilliant paintings that describe everything wrong with the world today, no Digital Synopsis
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