Blass Mass: Um laço como este não se quebra

Joel Edgerton põe-se a caminho do Óscar para melhor actor secundário na nova longa metragem de Scott Cooper, Black Mass, uma vastidão de presenças efémeras que sobrevive à custa de duas tremendas metamorfoses e de tiros a sangue frio que o irão arrepiar.

Black Mass de Scott Cooper é uma experiência cinematográfica monumental que falha, terrivelmente, enquanto estratégia narrativa.

O rosto deformado de Kevin Weeks (Jesse Plemons) enche a apinhada sala escura. Os seus olhos semicerrados em desafio anunciam o sucesso iminente de um filme que nos promete apresentar um dos maiores chefes do crime do sul de Boston: Jimmy “Whitey” Bulger (Jonhy Depp).

A relevância anunciada de Weeks é, contudo, somente um vestígio da brutalidade que cerca a matilha comandada por Bulger e, rapidamente, encontra rivais sérios que transformam o prólogo numa decisão inconsequente que pouca atenção sabe gerar.

Dividida em três actos, que assinalam três grandes momentos da evolução de Jimmy de bandido de pequena escala a poderoso senhor da droga, da prostituição e do jogo, a fita de Cooper é, de facto, demasiado desconexa para sequer garantir a coerência desejável.

Jimmy e Connolly (Joel Edgerton), um agente do FBI que estabelece uma aliança com o criminoso, são personagens conseguidas com enorme mestria em torno das quais gira um universo de assassinatos ocasionais, encontros breves e enredos secundários inacabados que confundem e quase distraem o espectador.

Weeks é uma dessas contribuições pouco significativas que, no final, nos fazem questionar o próprio ritmo do filme.

A menos de dois terços do último minuto, ficamos especados em parte deslumbrados pelas actuações de Depp e Edgerton, em parte sufocados pela ausência de uma lógica clara neste amontoado de episódios.

Blass Mass sofre, claramente, dessa natureza fragmentária que, felizmente, não atrapalha o seu grande trunfo: a experiência que proporciona.

A sonoridade congeminada por Tom Holkenborg (Junkie XL) é, irreversivelmente, uma das maiores responsáveis pelo sentimento de constante tensão de que beneficia esta obra.

É subtil, mas certeira. Envolvente e misteriosa. Capaz de amortizar os momentos de choque, conferindo-lhes uma profundidade menos descarada, mas muito mais perturbadora.

Veja Black Mass de olhos fechados e estou certa de que o espera uma grande revelação. 

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A naturalização da brutalidade do crime e a magnitude das relações familiares podem monopolizar a narrativa, mas é no efeito que os múltiplos assassinatos e incidentes (como a morte do filho de Jimmy) produzem que se encontra o real reflexo destas tendências.

De cada vez que se abate um inimigo a sangue frio, saltamos da cadeira até percebermos a previsibilidade do próximo tiro e apreciarmos o seu efeito enquanto necessária resposta à traição.

A composição fotográfica, que, certamente, faria deste filme uma tremenda ameaça a qualquer rival, é, por outro lado, bastante inconsistente.

No “cemitério de Bulger”, as silhuetas dedicadas de Jimmy e dos seus dois camaradas desenham uma geometria fina que contrasta, maravilhosamente, com a grandeza da própria ponte.

Diversas são as vezes em que a sombra invade os rostos e a luz brinca nos cabelos pensados ao detalhe. Os planos nocturnos exalam, na sua grande maioria, uma elegância fascinante. 

Há, todavia, uma notória pressa em algumas cenas dispensáveis.

A participação de Dakota Johnson, em particular na cena passada no hospital, é exemplo desse desinteresse visual de quem quer passar à frente mas insiste na inclusão [desnecessária] de mais uma estrela de Hollywood.

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Black Mass desfrutaria de maior vitalidade  se ousasse descartar essa multidão de rostos notáveis que pouco acrescentam ao enredo.

A intensidade das actuações de Depp e Edgerton (que estará a caminho do Óscar para melhor actor secundário) seria, efectivamente, amplificada por um vácuo saudável de atenção.

Se, por um lado, a natureza episódica deste filme coloca o espectador à deriva, perdido entre o terror e lealdade que se exige aos rapazes de Southie, por outro a arquitectura desse laço de dupla protecção e vantagem tende a alimentar o seu interesse que só pode ser mantido pelas emoções que, sucessivamente, são estimuladas.

O filme de Cooper, à primeira vista, pode não passar de uma grande confusão de rostos e nomes que a grande custo se aprendem, mas distingue-se pelos arrepios que provoca entre o poder e a artimanha de um dos homens mais procurados nos Estados Unidos da América.

Para ouvir: Take care, kid de Tom Holkenborg
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