O acidente ou o amor não vende, mas cá está

Na superfície arranhada do autocarro, Anita observava a sua silhueta instável entre o movimento latino das suas ancas avantajadas e a bolsa, tremendamente, pesada que lhe deformava o decote. “Mais um almoço cidade”, pensava ela, no dia em que, por fim, vislumbraria a sua alma gémea.

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A janela de alumínio e duplo vidro rangia sobre a moldura no esforço débil que Anita tentava aplicar para encontrar um pedaço da madrugada lisboeta.

O imenso céu cinza alaranjado convidava os pensamentos matinais, embora as sete horas de sono que a mulher de 28 anos acolhera a forçavam a um grande peso sobre as pálpebras, incapacitando qualquer movimento precipitado do cérebro.

“Olá, bom dia”, cumprimentou o seu irmão, cujo braço rodeava a cintura torneada e quase nua da namorada daqueles dias.

“Viva”, respondeu-lhe, vencendo a rouquidão acostumada da ocasião pornográfica a que era obrigada a acordar.

Encheu a xícara até ao rebordo com coragem e desatou a colocar uma cara apresentável de camadas eternas de rimel e blush.

“Chegas tarde hoje?”, perguntou Simão, agora especado na entrada atrevida do seu quarto.

“À hora de sempre. Onde queres que vá?”, resmungou, recordando as filas de colegas que se dedicavam à condenada actividade do namoro.

“Talvez seja este o momento de ultrapassar…”. “Ultrapassar o quê?”, interrompeu-o com fúria. “Explica-me por que haverei eu de enterrar energia em mais um homem?”

O seu rosto, perfeitamente, composto tremia de entusiasmo.

Nas manhãs em que arriscava os seus próprios pés como meio de transporte, o impacto que causava no mundo era evidente.

Lá ia ela de cintura fina e pernas esculpidas pela avenida, sentido o calor dos desconhecidos fascinados sobre o seu rosto e o seu belo traseiro.

Uma incrível escultura em movimento que jamais despertaria a atenção de qualquer potencial candidato a utilizador a tempo inteiro.

O segredo? Causa-lhes medo a magnitude da chefe de uma das empresas mais bem sucedidas na economia anoréctica do momento.

Trabalhava até ao osso, comia até sentir o enjoo eminente, corria até não poder mais.

Era, em suma, uma mulher de excessos, de riscos e convicções fortes: um unicórnio desequilibrado que queria amar de mais ou não o fazer de todo.

A brisa morna que o trânsito lento gerava aconchegava-a naquela longa caminhada entre turistas vagarosos e profissionais bastante incompetentes nos seus horários.

Nos pés levava a fúria que sempre aplicara sobre o mundo; no rosto a seriedade fotográfica que deslumbrava qualquer Hércules cheio de bravura.

Equilibrava as pastas para o dia de negócios e o telemóvel atarefado sem perceber a figura esbelta que acabara de atropelar num choque mortal para o seu companheiro tecnológico.

“Desculpe”, reproduziu automaticamente.

Levantou os olhos, bateu as grossas pestanas e sentiu o espaço na base do seu pescoço emagrecer, desprovido de ar.

O homem dez centímetros seu superior fitava-a, perdido num tempo que parecia não conhecer agenda.

Anita tentou ultrapassar o obstáculo, incomodada por aquela ousadia. Ricardo segurou, gentilmente, o seu braço.

“Desculpe”, sussurrou-lhe, arrepiando a abundante colecção de cabelos inapropriados que cobriam os seus antebraços.

“Deixe-me pagar-lhe um café, para compensar este acidente. O telemóvel arranja-se num instante”, prometeram os lagos esverdeados que inundavam o seu rosto.

“Não se preocupe com isso”, ripostou friamente, pouco convicta e pronta a disparar a caminho de mais uma manhã adiantada.

“Parecia tão ocupada. Estou certo de que vai precisar de um telemóvel o resto do dia. Fique com o meu e assim sempre tenho uma desculpa para a levar a jantar”, sorriu-lhe, rasgando a barba mal crescida.

As sobrancelhas arranjadas de Anita fingiram assimetria por um curto momento de cepticismo inédito a partir desse acaso tão conveniente como só a pressa e o prazer sabem forjar.

Para ouvir: Forever de Tracey Chattaway | Ilustração: La noche estrellada de Jimmy Lao

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