Até uma musa precisa de uma musa

A britânica Imogen Poots e o americano Owen Wilson protagonizam She’s funny that way (ou Um amor a cada esquina, na tradução portuguesa) uma farsa de confusões, coincidências e anedotas envoltas numa delicada ironia.

Extingam-se os cínicos.

“Há sempre alguma magia”, relembra Isabella Patterson (Imogen Poots) à jornalista pouco convencida com o relato que acaba de escutar.

A primeira insiste num passado repleto de coincidências e erros inocentes – quem sabe, divertidos – que a trouxeram ao estrelato de Hollywood.

A segunda, cética e consciente dos truques naturais a esse negócio que é a fama, tenta desvendar o engenho subjacente à imensa confusão responsável pela popularidade desta actriz.

She’s funny that way de Peter Bogadonavich prefere, de facto, o acaso à malícia, promovendo um enredo que quase provoca o riso e entretém com reviravoltas e repetições pouco inesperadas.

O filme do realizador de Paper moon (1973) experimenta uma singeleza bastante reminiscente do trabalho de Woody Allen sem conseguir criar, todavia, essa atmosfera interessante que o caracteriza.

Em Nova Iorque para encenar mais uma peça de teatro, Arnold Albertson (Owen Wilson) recorre a um serviço de acompanhantes para ocupar a noite.

Isabella aparece-lhe no confortável quarto de hotel e logo descobre que a sua vida está prestes a mudar.

“Quem diz que não podemos dar esquilos às nozes?”, questiona Albertson, encorajando a jovem a procurar o seu lugar no mundo.

O romântico encenador ensaia um gesto à Edward Lewis, resgatando Isabella da prostituição com a simples doação de 30 mil dólares e, mais tarde, com a atribuição do papel principal da sua peça.

A relação de Isabella e Arnold não é, contudo, tão simples como este prelúdio deixa antever.

Arnold é casado, não tem a mínima intenção de abandonar a sua esposa e faz destes gestos uma rotina curiosa de falso altruísmo.

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Nada parece convencional nesta farsa de coincidências que, rapidamente, reforça a velha intuição de que o mundo não é mais do que uma pequena aldeia.

Owen Wilson oferece-lhe uma actuação digna de si próprio: morna, mas agradável.

Ao seu lado, Poots, em conjunto com um verdadeiro elenco de luxo, tenta divertir, mas apenas consegue intrigar, levemente, o espectador, que se mantém preso ao ecrã pela acção aditiva da eloquência elegante desta fita.

Não é que este seja um desastre monumental. É, com sinceridade, um analgésico pós-laboral bastante eficiente que só começa a irritar, quando deixa perceber um fim tão vazio como todo o seu corpo.

É improvável, delicado e curioso. Arranca alguns sorrisos e embala, docemente, na transferência rápida de protagonistas e intrigas secundárias.

Falta-lhe, porém, uma consequência final: um verdadeiro telos que justifique as duas horas de entretenimento e corridas lentas que prendem, mas não fascinam o espectador.

She’s funny that way promete dizimar os cínicos, mostrando-lhes a magia da coincidência, o acaso do sucesso, mas a sua fraca conclusão a um enredo estrambólico acaba, efectivamente, por contribuir para esse cepticismo acostumado de quem não encontra no leve uma razão suficiente para desperdiçar tempo.

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