O estranho ou prédios-forca de vidro

Estava cansado; extremamente cansado. O burburinho irritante do quarto subjacente começava a inflamar o meu estado de quase sono. Deixei o efeito inebriante do soporífero que tomara relaxar os meus nervos. “Mas quem raio ouve música a esta hora?”, gritei ao travesseiro mesmo antes de cometer o crime da minha vida.

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Os vidros rudes das janelas traseiras da cozinha deixavam escapar a escuridão da madrugada.

No chão manchado pelos sucessivos inquilinos de higiene duvidosa, crescia uma incrível poça de água e tequila junto à sabrina que te fiz descalçar, às chaves que deixaste cair e ao pincel de maquilhagem que seguravas aquando do golpe final.

Sorri para a desarrumação da noite em que finalmente a festa fora minha e comecei a limpar os estragos da minha tomada de posição.

“Bom dia, Pedro”, disse-me a hóspede curvilínea do quarto junto ao palco da minha revolução.

“Olá, Inês”, retorqui-lhe, mostrando-lhe o brilho ofuscante dos meus olhos saciados.

“Pedro?”, perguntou-me ela, agora a fixar o corpo deitado ao fundo da divisão. “Que tem a Sónia?”

“Foi-se: o barulho, a estupidez e a incompetência”, respondi-lhe, calmamente, sem perceber a dúvida levantada por aquela silhueta deliciosa.

“Oh meu Deus, Pedro!”, gritou-me Inês, dirigindo-se histérica ao cadáver. A sua voz era esganiçada. Não percebi o alarme. Afinal, nunca havíamos apreciado aquela pobre adição ao nosso lar improvisado pelo meu desemprego.

“Pedro, vou chamar a ambulância e a polícia”, informou-me a miúda de 28 anos, pronta a fumegar a minha serenidade com o azul que lhe coloria o rosto.

“Não te vale de nada”, insisti pleno das minhas faculdades, sentindo os caracóis desarrumados que me cresciam no cimo da juba.

“Vou alegar insanidade momentânea. Estou deprimido. O sistema judicial não funciona. Só me vais irritar”, esclareci, certo de que a minha barba selvagem – sem qualquer pretensão hipster – levá-la-ia a um êxtase não planeado e adormecedor.

“Volta para a cama. Eu trato disto”, aconselhei, por fim, preparando o espectáculo para a chegada dos homens do lixo especiais, isto é, as forças policiais que me livrariam do corpo sem qualquer encargo (um serviço, surpreendentemente, eficiente).

Inês rodava sobre os calcanhares, emitindo aquele ruído agudo que sempre me perturbara.

Atirei-lhe a tábua de madeira maciça ao crânio, farto deste bando de mulheres que me invadira o apartamento.

A crise – essa besta desumana – fizera-me partilhar um refúgio sem medir o perigo. Assassinara-as.

A experiência concedera-me um rosto simpático e uma centelha de paciência que logo se esgotou e fez jorrar o sangue fedorento destas duas jovens de meia idade, cujas personalidades isentas da mais escrupulosa disciplina deixara muito a desejar.

Sentei-me ao lado da lagoa que a garrafa rachada deixava aumentar. Ouvi o número curto dos serviços de limpeza e esperei que me atribuíssem uma nova residência.

Quem sabe, desta vez com serviço de quartos a que, claramente, tinha direito.

Para ouvir: Half hidden por Sophie Hutchings
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