A paixão é só euforia mal disfarçada

A paixão é um estado de euforia muito mal disfarçado ao qual se segue a dura realização de que estamos, totalmente, sozinhos, neste mundo liderado por polvos vindos de Marte.

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A ideia de amar alguém profundamente tem encantado gerações de criaturas fortes e ingénuas, que, em nome de tal demanda, pouco de si declaram território proibido.

“Quando te acontecer o mesmo, verás o mundo de modo diferente”, prometiam-me as anciãs maciças, cujas extremidades redondas não podiam deixar de impor respeito.

Eu abanava a cabeça, fingia-me encantada com qualquer brincadeira aborrecida e seguia caminho, certa de que a minha convicção seria para sempre imutável; convencida de que nenhuma emoção poderia tolher o meu espírito de bravura e independência.

Quando, finalmente, dei por mim desperta para os fascínios de um umbigo que não o meu, percebi que essa inebriante sensação de pertencer inteiramente a outro era, contudo, demasiado efémera para os cobardes, como eu, que preferiam a autonomia desse estado inicial de euforia.

A paixão, mesmo que não num sentido estritamente romântico, tende, quando não transformada em amor, a desaparecer num curto espaço de tempo, arrasando brutalmente o território que, umas semanas antes, fertilizara.

A minha existência – esse amontoado abstracto de ambições, contas e consideráveis quedas – sente-se, de cada vez, mais leve e suportável, para logo depois me esmagar a coluna e fechar, severamente, o rosto.

Na alameda inclinada, apressam-se vidas vazias entre o ruído delicioso das folhas secas e as bicicletas assassinas, que nos fazem partilhar um pedaço da mortífera calçada lisboeta.

O meu coração saltita, escutando, atentamente, um qualquer êxito musical recente e a minha respiração compassada que o exercício regular soube treinar.

Pela primeira vez em semanas, sorrio aos meus companheiros de viagem.

“Talvez nos falte a coragem para abolir esses desenlaces agradáveis”, penso, não muito depois, quando a droga eufórica já está, irreversivelmente, diluída na trança esfomeada do dia à dia.

Essa caça entusiasmante que roça o perverso e nos distrai da linha recta traçada por nós para um futuro fosco constrói manhãs animadas e noite lentas repletas de pensamentos distantes e sorrisos inusitados.

É, porém, demasiado veloz para conseguir, efectivamente, merecer o louvor que Hollywood e os jovens corações lhe têm prestado.

A paixão é só euforia mal disfarçada; sensualidade engarrafada, e possíveis finais que, dificilmente, se encontram com a realidade. 

No seio desse continente letal de excitação e novidade, sobrevivem os poucos corajosos que conseguem resistir à dura transição entre os muitos moribundos que se espantam e riem no meio do passeio com polvos alienígenas e recordações escrutinadas até ao último fio de esperança.

Para ouvir:  Bugs’ walk por Per Storby Jutbring
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