The Martian: chama-me capitão barba loira

The Martian, a mais recente fita do lendário realizador de Alien (1979) e de Blade Runner (1982), Ridley Scott, promete antecipar a sua viagem ao planeta vermelho, oferecendo-lhe o olhar divertido de um condenado à morte convicto da sua sobrevivência.

A impressionante silhueta de Marte enche o olhar dos muitos espectadores – esmagadoramente, pertencentes ao sexo masculino – perdidos naquela sala escura.

O horizonte avermelhado e as falésias vertiginosas deixam antever um filme de grande beleza fotográfica à semelhança dos êxitos dos últimos anos Gravity (2013) de Alfonso Cuarón e de Interstellar (2014) de Christopher Nolan.

O preâmbulo é, contudo, apenas um petisco ao qual não se segue uma refeição robusta de planos incríveis.

The martian (ou Perdido em Marte, na tradução portuguesa) aposta não nesta mestria visual que consagrou estes sucessos de vocação semelhante, mas na leveza utópica de uma humanidade entregue à solidariedade e esperança.

Abandonado em Marte durante uma perigosa tempestade e dado, por isso, como morto, o astronauta Mark Watney (Matt Damon) representa essa força inacreditável capaz de transformar a dificuldade em vitória.

Sem mantimentos alimentares suficientes, Mark arrisca o impensável: faz brotar batatas no árido solo marciano, regando-o com água conseguida através de um complexo processo de condensação.

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Para todo o lado que vou, sou o primeiro“, reflecte o astronauta de invejável coragem e perseverança.

Watney, o colonizador oficial do planeta vermelho, carrega sobre os ombros a sua própria sobrevivência, jamais cedendo ao derrotismo ou à melancolia que Ryan Stone (Sandra Bullock) preferira em Gravity.

É verdade que a fita de Scott não se limita a acompanhar a jornada de Mark – o contraponto passado na Terra é, efectivamente, uma valiosa adição à dinâmica narrativa – e, por isso, tende a afastar-se, categoricamente, dessa solitude esmagadora que o filme de Cuarón conquistara.

Mark sofre, além disso, de uma natureza bem diferente da que a aflita Ryan cultivara: é agradável, sarcástico e, sobretudo, uma grande referência de superação.

The Martian é, mesmo nos momentos mais críticos, uma obra que não pode deixar de provocar o riso e a boa disposição.

Falta-lhe, todavia, drama (em Marte e, sobretudo, na Terra); É incapaz de retratar a humanidade para lá de uma visão idealista dos nossos esforços; mas é quase brilhante nesse tom ameno da certeza de que um final feliz nos espera ao virar da esquina.

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Baseado no romance de Andy Weir, o filme protagonizado pelo talentoso Damon, que convence e diverte nesta sua representação, entretém e anima sem nunca confrontar, verdadeiramente, o espectador com o perigo indissociável desta situação.

“Há um momento em que tudo o que pode correr mal corre”, relembra Watney, nos últimos minutos.

É talvez essa a maior lacuna desta obra: a perfeição com que os problemas se dissolvem corrompe o possível clímax, deixando-nos afundados nas cadeiras acolchoadas as duas horas sem que o mínimo movimento de surpresa ou alarme seja estimulado.

The Martian é uma agradável opção para aqueles que, entretanto, perderam a fé na humanidade. O retrato que propõe transpira o género de harmonia [utópica] que há muito andamos a desejar sem sucesso.

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