Estamos todos, essencialmente, sós

Michael Davenport, produto da imaginação do aclamado autor norte-americano Richard Yates, deambula pela vida, entre casamentos, poemas e depressões com o eterno receio de não poder ser mais e sem perceber a triste passagem do tempo que lhe apresenta um velho por reflexo. 

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No seu confortável quarto de hotel, Michael Davenport surpreende uma silhueta idosa no lugar habitual do seu reflexo.

Os anos, esses cavalos injustos que parecem não conhecer limites, ceifaram-lhe a juventude e a elegância, mas jamais a pompa que a certeza de um futuro brilhante tende a gerar.

Michael andara sonolento pela vida, invejando carreiras, mulheres e sucessos, sem saber por inteiro se os desejava para si ou se os desprezava tão completamente.

No protagonista de Jovens corações em lágrimas de Richard Yates, sobrevive um ego fraco que teme a demência, aspira à grandeza, mas, essencialmente, vê-se refém de si mesmo e da sua impotência.

A fragilidade de Michael, primeiro reflectida no ato simbólico de não conseguir dar o salto e apostar tudo no sonho de escrever poesia e depois mantida pela terrível paternidade que desempenha, passando pela sua impotência sexual e pela necessidade de se apoiar numa figura feminina para se sentir realizado, não pode, contudo, deixar de ser empática.

Davenport é pequeno, solitário e, eminentemente, louco; é alcoólico, forçado e tão indulgente; é, em suma, o modelo do pior dos homens e dos vícios enterrado numa superfície complexa de vontades e medos que o tornam, simplesmente, fascinante.

“Estamos todos, essencialmente, sós”, diz-lhe, por fim, a sua jovem [segunda] mulher.

Até essa propriedade que o matrimónio lhe concedera [ou a autêntica maravilha que é o ato de pertencer corpo e espírito a outro] é-lhe roubada.

Está na penúria: sempre o esteve e é, por isso, que esta obra de Yates se torna numa pérola obrigatória na longa bibliografia que tem de reter nesta vida.

Lucy, Laura, Michael ou qualquer personagem deste romance sofrem dessa terrível condição humana que é a solidão.

Uma milionária que se  deixou converter à classe média pelo marido e que não se reconhece em nenhum destes novos ambientes; uma criança negligenciada pelos pais ao ponto de transformar a potencial irmã numa amiga imaginária; um poeta sozinho na apreciação das suas obras, respectivamente.

Enfim, um aglomerado de infelizes capazes de lutar, mas ináptis nessa dura tarefa que é a vitória.

Talvez seja esta a última grande característica de Michael a apontar: esse trabalho árduo e constante que parece ser a sua vida.

O poema jamais lhe chega naturalmente: requer semanas, meses e até anos para a escultura de frases que, no fim, perdem a chama que as sustentara.

Tom Nelson – o protótipo do sucesso, nesta obra – é, de facto, a figura que mais faz realçar esta exaustão a que Michael se submete.

O primeiro descontrai o coração e ilustra, acumulando milhares de dólares e admiradores.

O segundo concentra o intelecto numa tarefa complicada que nada produz a não ser um único grande poema que, para sempre, recitará.

O estilo de Yates é o mais apetitoso dos convites inerentes a este romance.

Efectivamente, a obra só pode resistir ao choque que, numa primeira fase, a [in]compreensão deste estranho protagonista tende a gerar face à monumental capacidade de escrever simples e fluente do autor norte-americano.

Yates tem uma eloquência extraordinária que combina tão bem com a desconjuntura intelectual deste instável Michael, não tão distantes de nós.

O antepenúltimo dos livros publicados pelo autor de Revolutionary road sofre de um excelente processo de diluição sobre o tecido do dia a dia do seu leitor.

Se num primeiro momento, permanecemos mergulhados à custa da mestria de Yates, já as semanas que seguem a conclusão da leitura são prova de um poder massivo de Michael, que se transforma num espectro companheiro a explorar.

Jovens corações em lágrimas – cujo título me desagrada, profundamente – tem, assim, de ser o próximo livro a ocupar os seus serões.

Fotografias por Isabel Patrício
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