A rede ou a solidão pode matar

Entre os seios, um v demasiado magro e atraente insistia numa dor incomensurável capaz de lhe cortar a respiração em três e fazer dela a vítima absurda de um qualquer esquema de paixão em que, finalmente, se pudesse dar por amada.

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A madrugada mal acordada transpirava um odor singular a frésias e menta como se o mundo adormecido libertasse, somente, uma única respiração compassada incapaz de poluir a humidade habitual.

A calçada polida pelos anos escorregava-lhe sob as solas sem jeito.

Matilde balançava, precariamente, um esqueleto frágil – acostumado ao peso da obesa patologia que é a solidão – que se debatia por encontrar as mangas corretas do agasalho.

Do outro lado do trânsito, jovens altos, musculados e com estilo faziam-lhe sombra, despertando o desejo ridículo de uma mão capaz de abrigar a temperatura gélida da sua.

“Se precisar de alguma sugestão, peça, por favor”, acordou-a o rapaz cor de areia responsável pelo imenso armazém de páginas um dia amadas; hoje deixadas ao desbarato entre a ferrugem e o pó dos intelectuais paupérrimos.

“Estou, ainda, a pesquisar. Obrigada”, respondeu-lhe quase sem voz, consciente da variação pretensiosa daquele serviço.

Afinal, Joaquim oferecera, arrogantemente, alternativas de consumo, como se a sua opinião fosse alguma vez, realmente, ponderada.

Empilhou sobre a anca, sedutoramente, revestida os exemplares órfãos de popularidade, dirigindo-se ao balcão atarefado, onde, finalmente, poderia dar-se ao luxo de escapar.

“É tudo?”, insistiu o homem encantador que, de certo, voltaria mais tarde para uma cama, estrategicamente, desarrumada e ainda quente.

“Se não fosse, que faria eu aqui a pedir para pagar?”, mastigou Matilde em silêncio, olhando, apaticamente, para a figura que se desenhava à sua frente. Acenou.

“São 40€, por favor”, informou o empregado, desviando as toneladas de cultura para uma área recôndita (entenda-se suspeita) de ensacamento.

A rajada descontrolada da capital destruíra o seu penteado, impecavelmente, construído para indicar a sua rebeldia [ficcional].

Sentia o chapéu de chuva puxar-lhe o braço e as primeiras gotas a inundarem o seu rosto quase erguido para os céus.

“Finalmente, um dilúvio”, gargalhou entre avenidas e cidadãos estranhos mais preocupados com os quilos de água que o vestuário, erradamente, escolhido absorveria do que com o som extraordinário desse céu em queda livre.

Ousou entrar na cápsula de vidro e ferro que fingia ser uma café lisboeta.

“Um chá verde e uma porção de aveia, por favor”, requisitou, sentando-se junto às vidraças inundadas.

O volume anoréctico das Viagens de Gulliver para o bolso de qualquer leitor desabitara o sacola de pano para povoar o tampo rústico daquele lugar.

“Os teus olhos são fascinantes. As tuas escolhas reveladoras. Liga-me”, gritava-lhe Swift da primeira página do volume.

Matilde fitou a folha, incrédula, ciente de que a sedução era uma arte em que era muito pouco hábil – diria, mesmo raquítica.

A humidade vegetal da sua bebida queimava-lhe as narinas.

“Que queria aquele Homem, provavelmente, com extrema afluência com um poder intelectual bonito, mas jamais reparado além dessa capa de tremenda sabedoria?”, ponderou a mulher de  vinte e cinco anos.

“Estou? Estou a ligar para lhe agradecer os elogios”, não resistiu, sabendo que a ideia de ser amada teria sempre o monopólio sobre a verdadeira possibilidade de vir a amar – uma concepção ridícula na ausência de um coração normal que a motivara durante anos.

“Podemos marcar um café? Aqui ao lado, há um pequeno restaurante que me abre a porta de manhã. Achei que seria especial, mais intimo, para nos conhecermos melhor”, arriscou a voz rouca que roçava o preservo – e, por isso, irresistível – tom de uma manhã abreviada.

“Amanhã?”, tentou Matilde, combinando, mentalmente, o vestido elegante com as altas botas de couro que faziam adivinhar os seus gémeos de corredora.

“Amanhã”, disse-lhe Joaquim, muitas horas antes de a beijar, travessamente, a base da orelha.

“Entramos?”, abreviou a mulher o romance não avisado.

Os músculos de Joaquim contraíram-se, deixando o seu rosto uma cortês máscara de ousadia.

“Entramos”, respondeu, invadindo o lugar escuro: o último que Matilde veria até se perceber enterrada no vício, na prostituição e em todas as entranhas desse mundo pérfido e pouco higiénico do tráfico de mulheres.

Joaquim, esse Adónis utópico a quem a sua ânsia solitária fizera ceder, abandonara-a ao destino pouco linear do acaso e de uma imensa rede de ilegalidades, prazer asqueroso e escuridão.

Para ouvir: Through the night por Richard P. John
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