Quem cala consente. Vá votar!

O seu futuro pede-lhe, gentilmente, cinco minutos de atenção: conceda-lhos. Caso contrário, qualquer reclamação posterior irá acabar, legitimamente, num poço sem fundo habitado por abstencionistas e eternos revolucionários apolíticos.

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Em fileiras assimétricas, múltiplos exemplares de um país que abandonou o gosto pela arte cobriam as respirações.

“Sim, sim. Discutimos os detalhes e adiantamos o trabalho, meu caro. Obrigada”, dizia o homem de meia idade especado atrás de mim.

O funesto odor a lacre derretido indicava o progresso de uma máquina muito pouco ágil – as votações haviam começado quarenta e cinco minutos depois da hora prevista – que em breve me engoliria.

“Bom dia”, sorri-lhes eu, entregando um enorme envelope violado com documentos e declarações a preencher pelas quatro mulheres derramadas, sem graça, pela longa mesa branca.

“Vá votar ali atrás e guarde o boletim neste envelope”, respondeu-me a funcionária, visivelmente, pouco acostumado ao mistério que é atender um cidadão que exerce o seu direito.

A esferográfica barata tremia-me na mão macia.

Cruzei, precariamente, o quadrado que decidira há meses preencher e apreciei uns minutos de confusão: a algazarra exigida pelo preenchimento da face de uma declaração parecia, àquela hora, profundamente monumental.

“É tudo”, acusou a outra idosa mal disfarçada, pressionando o paralelepípedo carmesim sobre a superfície áspera e azul da minha escolha.

Evadi-me daquela sala aquecida, percorrendo uma imensa fila de votos antecipados e rostos bonitos que, ao ritmo do trabalho actual, muito teriam de esperar.

Votei dez dias antes, ainda a campanha ia no adro, e já tão certa de que nenhuma opção seria a acertada; já confiante na palavra como alternativa imperativa ao silêncio cobarde e tardio das abstenções.

Depois do escândalo dos cartazes do PS, do histórico do PSD, da publicitação da carreira artística do BE e da luta morna acostumada do CDU, pouca energia me restava para alimentar o ato de me mover ao magnífico edifício do Campo Grande, não fosse a vontade de, mais tarde, poder gritar com direito ao Estado ou apoiá-lo, corajosamente, com orgulho de ter contribuído para o caminho adequado.

Aos que não gozam do estatuto especial de migrante, nem se atrevam a reter a opinião.

A abstenção é um ato válido de protesto. Tão mais válido, quando se percebe que um país não pode ser governado pela ausência e que a ineficiência conduz, somente, à asserção de um poder que não aquele, legitimamente, preferido pelas massas.

Quer tomar a sua voz? Vá votar! Exerça o direito [dever] pelo qual tantas vidas se esgotaram e abandone o conforto preguiçoso da oposição permanente.

Seja do contra com gosto (junte-se à equipa), mas manifeste esse berro para que se calem os mamutes obesos que andam a monopolizar o futuro.

Num sistema tão burocratizado como o actual, o voto é dos poucos convites à sua opinião: não se deixe calar.

Fotografias por Isabel Patrício | Mais: Guia Eleitoral, no Observador
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