Life: vivemos todos na esperança

Dane DeHaan e Robert Pattison protagonizam o novo filme de Anton Corbijn, Life, um retrato inteligente da relação de duas estrelas em potência dominadas pela arte, estranheza e paixão. 

“Temos de chegar a casa, porque estivemos tanto tempo à distância que nos parece para sempre e um dia”, recita James Dean (Dane DeHaan) na cena final de Life, a fita melancólica que acompanha o jovem actor nas semanas que antecederam o seu tremendo sucesso em East of Eden (1955).

Dennis Stock (Robert Pattison), o fotógrafo da lendária agência Magnum que captaria o eterno momento em que Dean atravessa a Time Square de gola levantada e cigarro a um canto dos lábios, segue os passos dessa promessa estranha -“o verdadeiro líder de uma novo movimento”, revela – ansioso por imortalizar a sua extraordinária individualidade.

O filme de Corbijn transpira elegância.

Entre a soalheira Los Angeles e a gélida Nova Iorque, somos levados pelos olhos astutos do realizador ao coração da fama.

Os grandes planos – uma delícia frequente, nesta obra – deixam a trivialidade, mergulhando num soberbo jogo de sombras e ângulos que não pode deixar de fascinar.

Corbijn, cujo passado na fotografia se torna evidente, produz em Life uma obra-prima surpreendente: elegante, contida e suave.

Pattison consegue, por outro lado, livrar-se desse espectro amaldiçoado que tem sido Edward Cullen, embora em algumas ocasiões quase não resista à tentação da depressão e intensidade dessa infame personagem.

Stock é, de facto, um promissor profissional, vampírico em vários sentidos, mas, perfeitamente, capaz de pisar o limite e quebrar esse histórico.

A actuação de Pattison é, por isso, uma agradável surpresa cheia de emoção, conflito e relevância.

DeHaan, que rouba, em simultâneo, grande parte da atenção exala, abundantemente, James Dean.

Do sotaque à maneira como se dispõe no espaço, DeHaan consegue reavivar essa figura imortal do cinema, transmitindo, sobretudo, o grave dilema que o amor à arte e o amor ao conforto familiar podem gerar.

Life 1

A Life tem sido atribuído um enredo vão e sem vitalidade.

O estrondo que o filme protagonizado por DeHann provoca é, contudo, desencadeado não pela densidade da intriga – que reconheço ser, somente, amena – mas pela energia peculiar que, curiosamente, oferece ao espectador.

Dean e Stock são personagens muito pouco trabalhadas aos olhos do espectador, mas a atmosfera que os rodeia, os simples gestos e planos que os caracterizam, dizem tanto sobre eles que a um admirador atento não faltarão, certamente, detalhes para debater.

Life não é cinema fácil; não sobrevive nas grandes cenas; prefere antes o pormenor, a calmaria e um sentimento avassalador de solidão e egoísmo.

As coisas boas são tão ilusórias“, confessa Dean com os olhos semicerrados e o corpo abandonado à assimetria.

Deixar a sala escura, depois de uma sequência final com as fotos que, efectivamente, ocuparam as páginas da revista Life, nos anos 50, é, assim, uma tarefa complicada para o espectador que deseja sempre mais: mais compassos elegantes, mais olhares perdidos e mais momentos de partir o coração, como é, inegavelmente, o final.

Life não é de todo trivial. Sustenta, de facto, um dos mais cruéis double binds da existência humana: ficar ou partir?

“Bem, poderia ter sido mais alegre. Foi bastante depressivo”, comenta o homem de meia idade que balança entre degraus.

É, todavia, no silêncio de Dean e na ferida, gradualmente, exposta pelo clique intrusivo da Stock que prolifera a excelência desta obra tão bem pensada, projectada e oferecida àqueles capazes de suportar o barulho chocante da ausência de palavras.

Um must-see inegável!

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