Um mês de estórias [e favoritos]: Setembro

Setembro trouxe-me liberdade; arrancou-me dos Açores e da paz confortável das minhas últimas férias grandes; levou-me à atarefada capital, à solidão acompanhada da vida académica e à correria dos dias de quem vive só para si. Eis agora o desfile dos muitos favoritos dos quais este mês tive o prazer de desfrutar.

Setembro (1)

“Senhores passageiros, vamos iniciar a descolagem. Por favor, endireitem as costas das cadeiras e desliguem qualquer aparelho electrónico que possam estar a usar”, dizia, gentilmente, a hospedeira oxigenada.

Ardiam-me os olhos. Três da manhã deveria ser uma hora ilegal de vir à realidade. 

“As luzes da cabine serão diminuídas. Trata-se de um procedimento habitual”, acrescentou a silhueta curvilínea, no fundo do corredor.

Olhei para a pequena janela, absorvendo os últimos momentos daquela paisagem baixa, cinzenta e tão familiar.

“Aqui vamos nós, mais uma vez”, tentei pensar, mas a temperatura gélida e o odor a lixívia do ar condicionado remetiam-me para um amuo severo, que me fazia doer os pulmões.

“Adeus. Até ao Natal”, consegui dizer ao edifício espelhado que, àquela hora, parecia bastante diminuto.

Cruzei as pernas, ponderei o frio que sentia e deslizei a máscara de seda estampada sobre o rosto exausto.

Quão descansada cheguei eu a Lisboa? Mesmo nada! O barulho dos motores e os sorteios extravagantes da Ryanair são um moderno dispositivo de tortura muito eficaz.

Inútil nessa altura, mas valiosa desde então, a máscara que usei para me isolar provém de uma soberba estante da Zara Home e não podia ser mais minha amiga.

Acordo já sem ela, mas, ao deitar, a minha insónia encontrou um inimigo, verdadeiramente, à altura.

Este acessório em conjugação com as dores deliciosas que o regresso à corrida nocturna me trouxe formaram, este mês, o par ideal de relaxamento.

Setembro foi assim: confuso, veloz e, sobretudo, tranquilizante.

No ouvido, carreguei o mais recente álbum de Alexandra Streliski, Pianoscope, cuja suavidade e encanto não podem deixar de o inspirar.

Prélude é, neste momento, a minha faixa predilecta para escutar ao dar corpo a mais uma dessas criaturas que me povoam a mente ou para acompanhar a esplêndida tristeza, ou melhor, a mescla interessante de ansiedade e impotência para a qual os meus horários malucos têm contribuído imensamente.

“Deprimida, mas brilhante”, gargalho, sarcasticamente, eu – o meu humor é uma espécie rara de ironia – enquanto completo o meu ritual diário de beleza, ultimamente, coroado pelo valioso Óleo extraordinário para cabelos finos da Elvive.

Os resultados são rápidos; a hidratação surpreendente, e o seu aroma sedutor.

A beleza – a minha e a do meu segundo lar – ocupou grande parte do meu pensamento, neste Setembro entre estações.

Decidida a reformar o que no ano lectivo anterior acumulara, fiquei-me, contudo, pela adição carinhosa de um cacto minúsculo à minha sobrepovoada secretária.

“Este é o meu novo filho”, informo. “Vai morrer não tarda nada”, responde-me uma amiga, cuja fé no meu instinto maternal parece ser ainda menor que a que eu própria converso. 

Está vivo. Dei-lhe de beber e fi-lo assistir a esta entrevista da Broadly à Rose McGowan, que, por estes dias, se anda a intitular de realizadora.

É uma conversa relevante acerca do sexismo em Hollywood, que, facilmente, poderia passar por espelho flagrante do que decorre em muitos outros escritórios.

Setembro apresentou-me, ainda, muitos e bons filmes, na companhia dos quais ando a terminar os meus dias.

Setembro A

Blue Jasmine de Woody Allen é, por um lado, o retrato fascinante da capacidade de reinvenção do ser humano e, por outro, uma discussão bem pensada acerca da corrupção e da luta de classes.

Jasmine (Cate Blanchett), abandonada pelos milhões de dólares que o marido, ilegalmente, agrupara, confronta-se com o pânico de encaixar num seio social que nada lhe diz.

Inteligente, profunda e quase divertida, esta é, de facto, uma fita a não perder.

Do grande cinema às pequenas produções, ouso, este mês, uma segunda recomendação: Me, Earl and the dying girl de Alfonso Gomez-Rejon.

Esqueça A culpa é das estrelas de Josh Boone, Para a minha irmã de Nick Cassavetes, Um amor para recordar de Adam Shankman ou até mesmo o clássico Love story de Arthur Hiller, esta é, efectivamente, a melhor opção desse longo reportório de histórias sobre cancro.

Me, Earl and the dying girl oferece uma realização especial – até reminiscente de Wes Anderson – uma fotografia angular e uma sonoridade inesperada que, com certeza, o vão conquistar.

Ultrapasse a condenação que serve de premissa, a verdadeira obra-prima deste filme é o sobrevivente Greg e a sua atraente estranheza.

Termino este mês tão, dramaticamente, marcado pelo morte de Aylan Kurdi, pelas eleições gregas, pelo escândalo da Volkswagen, pela campanha eleitoral para as legislativas de 4 de Outubro, pela prisão domiciliária do ex-primeiro-ministro José Sócrates e por tantas outras estórias que pode rever aqui, com uma novidade entusiasmante e com uma peça reveladora.

Em primeiro lugar, anuncia a Fast Company que a nova plataforma Sight, sound and motion (visão, som e movimento, em português) permitirá a pesquisa de qualquer vídeo público não só consoante o seu título, mas, também de acordo com o que nele próprio é incluído.

Pela primeira vez, para cada vídeo, podemos reconhecer não só o que está no ecrã, mas também o som e o movimento“, avançou David Luan, fundador da Dextro, a empresa responsável por esta inovação que, num primeiro momento, servirá, essencialmente, a alguns agregadores virtuais de notícias.

Setembro B

Da tecnologia, à arte de bem casar, Tim Urban no Wait But Why explora, numa sequela de dois artigos, o estado das relações amorosas: como surgem, como são percepcionadas pela sociedade e como devem, de facto, ser encaradas.

Com recurso a diversos estudos e inquéritos, Urban discorre, humoristicamente, sobre o complexo universo da paixão quer para casados quer para – e sobretudo para – os solteiros à procura do companheiro de uma vida.

Por hoje, fico-me com o Outono escaldante da capital e com o desejo sincero de que este Outubro lhe traga grandes alegrias e, a mim, resmas de novos favoritos para partilhar.

Anúncios

4 pensamentos sobre “Um mês de estórias [e favoritos]: Setembro

  1. Esta é a minha rubrica favorita do teu blogue. Leve, descontraída e sucinta.

    (Um dia comprei um cacto para embelezar a casa e para ter alguma coisa para cuidar … Consegui o nobre resultado de fazer com que morresse precocemente. Passado isso, fiquei feliz por ter decidido pelo cacto em vez de um animal de estimação que tantas vezes peço como prenda ou até mesmo um filho.)

    Gostar

      1. Estupidamente, pensei que o cacto não necessitava de tanta atenção como as restantes plantas e, quando dei por mim, já ele era mais amarelo do que verde.

        Morto e enterrado, cheguei à nobre conclusão que não valeria a pena dedicar o meu precioso tempo a cuidar de coisas que dependessem verdadeiramente de mim e que necessitassem da minha atenção.

        Beijinho 😉

        Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s