A vida é mais do que contar calorias?

Duas décadas para perceber a existência de um vício saudável de vigilância. Um dia para descobrir a inutilidade de tudo isto.

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Falta-lhes o topo. É estranho. Os corredores quase imensos do supermercado local não têm cabeça. Escapar de prateleira em prateleira torna-se, por isso, um ato cheio de claridade inapropriada.

Na longa ala dos cereais e granolas – uma predilecção adequada à minha preguiça culinária e apetite frequente de pássaro esfomeado – a minha silhueta debruça-se longamente sobre as traseiras ásperas dos pacotes.

“Muito bem. Isto para 40 gramas e que tal para 100?”, vou calculando na alegria divertida de vigiar o que ando a desperdiçar; na loucura acostumada de não querer regressar à origem do problema.

Poderia, facilmente, discursar acerca de uma espécie de obesidade psicológica que se entranha no nosso esqueleto mesmo depois de atingirmos a figura mais elegante das nossas vidas, mas hoje prefiro ficar-me pela inutilidade de tudo isto.

A minha cara em repouso – uma máscara extraordinária de atitude, curiosidade e depressão – vai desfilando pelas ruas gastas da cidade.

À direita, passa o casal de altura similar e coloração mimética; mais à frente, alguém dotado de generosidade e algum adónis incompreensível; ao meu lado, o processo inverso de afecção improvável.

“Passa manteiga de amendoim nas Oreo”, aconselho com uma gargalhada. “Isso, sim, seria uma verdadeira bomba calórica”, responde-me de olhos semicerrados a minha jovem irmã [este adjectivo está melhor?]

“A vida é bem mais do que contar calorias”, explico-lhe, por fim, rompendo o círculo vicioso de dependência e vigilância que durante anos andei a cultivar.

Amealhei-as, parcamente, como um triunfo pessoal paralelo às vitórias naturais a que me prestava.

Mergulhei em histórias que me preocupavam e deprimiam, certa de que, um dia, a idade me apresentaria esse “eu” esbelto e sem esforço que, imersa em trabalho, teria ainda tempo para longas conversas e carinhos com o mundo em seu redor.

Desliguei o alarme, cobri os olhos com a máscara de dormir de seda estampada – bem, que chique ando eu – e preferi ficar-me nesse universo, onde as páginas cheiram a felicidade e a conforto; onde o hálito fresco do mar me acorda suavemente; onde o desenlace é assertivo: sem as dores tímidas do costume.

Duas décadas são ainda muito pouco para chegar a esse cosmos prometido, dizem-me. Mantenho-me alienada, enterrada em criaturas que não se querem calar bem no centro das minhas ligações sinápticas: fico sempre meio “eu”

À esquerda, vão passeando de mão dada humanos comuns – a trivialidade é um mal de que sofro, gravemente, com a mágoa imensa de não poder ser mais – sem se darem conta do esforço que me arrancou desse reportório de maravilhas que concentro neste sítio secreto.

Contei-as até mais não poder – um exagero lexical, porque nunca fiz mais do que estimar com saúde – para depois perceber que o movimento acontece [aos outros] por natureza, quer estejamos vazios ou repletos de possibilidades.

A vida é, de facto, muito mais do que recriminar calorias: é sabê-las ao de leve e experimentar a loucura da aventura; é correr até ficar sem fôlego e cantar em pleno trânsito; é amar, sem ser amado e esperar que o limbo um dia se transforme nessa terra mediana que tantos dizem incomensurável.

Até lá, chegam-nos os passos pesados destes amigos omnipresentes, a melodia preciosa de Streliski e a nossa fome insaciável de conhecimento.

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