Homem irracional: aleatoriamente, banal

A nova longa-metragem de Woody Allen, Homem Irracional, promete fazê-lo mergulhar na aliatoriedade a vida pelo olhar irresistível de Abe Lucas (Joaquin  Phoenix). Despretensiosa e sorridente, sofre, porém, de uma doença degenerativa pouco atraente.

Abe Lucas (Joaquin Phoenix), um professor de filosofia com fama de sedutor, acumula, dolorosamente, dias, romantizando a ideia do seu suicídio.

Impotente, autodestrutivo e, por isso mesmo, fascinante, Abe assemelha-se em muito ao louco Michael Davenport que, em 1984, Richards Yates criara: estão ambos à deriva num universo imenso de questões existencialistas que pouca paz lhes concedem.

Homem irracional de Woody Allen é, à boa maneira do realizador, uma tragicomédia que transforma o complexo mundo da filosofia, com referências de Kant a Kierkegaard, passando por Arendt e Dostoievski, num produto de consumo rápido e encantador.

É este movimento hábil de popularização do existencialismo o responsável pela construção cativante da premissa expressa na primeira parte da fita.

O entusiasmo que este arranque provoca é, porém, gradual e gravemente, desapontado.

Revitalizado pelo possibilidade de, através do assassinato, tornar o mundo melhor, Abe entrega-se, por fim, à felicidade.

Permite-se, finalmente, amar Jill (Emma Stone), que lhe seguira a sombra desde o primeiro dia; abandona-se a um  caso tórrido com  Rita (Parker Posey), professora na mesma universidade que Abe; planeia, detalhadamente, o ato criminoso que livraria o mundo de um juiz parcial e nefasto ao sistema.

Lucas encontra, enfim, a sua raison d’être: ser um justiceiro anónimo, repleto de paixão e encanto pela vida.

Ao filme de Allen falta, contudo, intensidade.

Abe e Jill vivem um caso morno, quase infantil, movido por um desejo pouco evidente e seguindo o corriqueiro caminho do escândalo.

A atracção mestre-pupila não é nada de novo no grande ecrã. Olhá-la com um ar fresco, quiçá humorístico, seria, de facto, uma jogada brilhante, mas, infelizmente, essa gargalhada nunca chega.

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Numa sala escura, surpreendentemente, composta, o riso aparece, fracamente, e em momentos pouco inteligentes, como no desenlace apressado, que extingue Abe e todo o interesse até aí cultivado.

A musicalidade da fita é redundante e previsível, a sua fotografia é doce, mas trivial, as personagens – à excepção de Abe – são adereços num enredo que, progressivamente, vai aborrecendo o espectador.

“A ansiedade é a vertigem da liberdade”, recita Abe.

É, exactamente, essa a emoção que mais está em falta nestes 95 minutos de fácil pensamento e consumo desinteressado.

Acostumada ao universo peculiar de Woddy Allen, vi-me desiludida perante a falta de sagacidade e energia de Homem Irracional.

De resto, Emma Stone experimenta a mesma máscara que já publicitara em Magia ao luar (2014): entretém, mais uma vez, uma relação disfuncional e assimétrica que, desde o início, está condenada.

Sem chama, mas elegante, Jill serve de narrador paralelo: um explicador agradável, mas, dificilmente, genial.

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