Um herói tão discreto que chega a ser invisível

O mais recente livro do vencedor do Prémio Nobel da Literatura, em 2010, Mario Vargas Llosa, é uma promessa frustrante que jamais ultrapassa a descrição corriqueira de pequeno escândalos mundanos. Um herói tão discreto que chega mesmo a ser invisível…

Felícito Yanaqué é o ilustre proprietário de uma companhia de transportes rodoviários.

Aos cinquenta anos, o peruano amealhou uma fortuna considerável, ultrapassou as suas origens humildes e vive, confortavelmente, entre a cama da amante e a mesa da mulher.

Don Rigoberto trabalha para a próspera companhia de seguros do seu amigo de longa data Ismael Carrera e sonha com a sua gloriosa reforma na Europa ao lado da sua [segunda] esposa e do seu [perturbado] filho.

N’ O herói discreto de Vargas Llosa, Yanaqué e Rigoberto experimentam a chantagem, o desafio e as dificuldades sérias colocadas, irreversivelmente, aos felizes e, por isso, invejados.

Ao proprietário começam a chegar cartas que lhe exigem 500 dólares mensais para sua segurança enquanto que ao amante da arte do Velho Continente cabem os perigos que o testemunho de um casamento, amplamente, controverso tende a gerar.

Os homens deste romance impressionam: são fortes e convictos, resistindo às provocações do mundo e da sociedade atenta da nação peruana.

Yanaqué e Rigoberto não se conhecem, mas o que os une é muito mais intenso do que aquilo que os separa: são, genericamente, semelhantes, embora caiba ao segundo uma dose bem maior de soberba e cultivo e ao primeiro um trejeito mais humilde, mas bem mais admirável.

O mais optimista dos romances do Nobel da Literatura não chega, contudo, a ser a fascinante intriga que, prematuramente, parece prometer.

Dotado de personagens que, facilmente, protagonizariam enredos tremendos, repletos de enseadas e explosões, O herói discreto fica-se, frustrantemente, pela narrativa morna de dois olhares incompletos, envelhecidos e, frequentemente, sem vitalidade.

Leve, agradável e de doce presença, este não é, todavia, um romance memorável a ter, obrigatoriamente, nas prateleiras da sua amada biblioteca pessoal.

A discussão em torno do possível herói que protagoniza e denomina a obra é, por princípio, interessante.

Embora se possa eleger como estrelas os homens principais, talvez seja o pai de Yanaqué – pobre, trabalhador, orgulhoso e determinado a dar uma vida melhor ao seu filho – o que mais merece este título.

O universo de pequenos enredos – um deles, pretensamente, sobrenatural – consegue mesmo desperdiçar a atenção do leitor e, no final, contribui para a imensa desilusão que constitui as suas últimas linhas.

Embora esteja ansiosa por descobrir a mestria que valeu a Llosa a ilustre distinção, O herói discreto não é, decididamente, esta a obra que me mostrará esse universo mágico da literatura latina. [Alguma recomendação?]

Fotografias por Isabel Patrício
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