A ampulheta ou a vida é para os duros

As solas negras dos seus sapatos ortopédicos conquistavam a grande custo as escadas infinitas da estação de metro. A pele ressequida que cobria os seus proeminentes gémeos dançava nos olhos claros de Fábio. Ouvia o bater surto da sua bengala, consciente de que aquela seria a sua próxima vítima.

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A mulher de quase oitenta anos conseguira, por fim, alcançar o longo corredor escuro que convidava os passageiros a picar o bilhete e a seguir viagem.

O seu blazer azul-marinho talhava uma silhueta elegante naquela figura antiga e curvada, maquilhada e desbotada, enfim exausta.

“Precisa de ajuda?”, sugeriu o jovem de malha cuidada e pestanas grossas.

A mulher fitou-o. “Este veio de onde?”, pensou, gargalhando, intensamente, a presença de um lisboeta, presumivelmente, simpático: um verdadeiro mito.

“A senhora precisa de um braço para chegar à superfície?”, insistiu Fábio, observando a mulher idosa cujo olhar contornado de negro não deixava de o seduzir.

“Oh agradecia-lhe imenso que me levasse a casa este saquinho”, indicou Raquel a bolsa de plástico ruidoso que pareceria ser agora uma tendência inegável.

“Com certeza. Mora por aqui?”, quiseram saber os lábios carnudos por onde escapava um hálito fresco e inebriante, impossível de resistir.

Raquel sorriu, planeando a visita breve e mortal que lhe ofereceria. “Moro mesmo à saída da estação, mas estas escadas rolantes são sempre um problema. É o equilíbrio, sabe?”, acrescentou com prazer.

“Está a ser muito simpático”, ousou a mulher, cujo poder de sedução outrora fora tão fatal como as cápsulas de cianeto que auxiliaram alguns dos maiores líderes da História.

“Ora essa. Eu sei que esta cidade pode ser demasiado rápida e pouco convidativa para os mais velhos”, explicou o homem, pensando no reportório de histórias que guardara para um dia contar ao mundo.

“Aqui vamos nós”, disse Raquel, segurando-lhe o braço à medida que deixava o seu esqueleto deteriorado embarcar nas escadas em rápido movimento.

Os azulejos coloridos de bege e doirado faziam a luz do fim de tarde bailar no átrio claro e sonoro – a música clássica tornara-se na escolha constante dos pedintes – que antevia os largos prédios com os quais sempre convivera.

“Aqui à direita, no segundo prédio, último andar”, confirmou a mulher seca e vazia de tempo.

“Já que foi tão generoso, que tal vir tomar um café?”.”Tenho um compromisso não tarda nada, mas cinco minutos são possíveis”, aceitou Fábio.

O átrio de mármore e mofo do prédio da baixa lisboeta gemia sob os quilos de História.

O elevador, essa relíquia reminiscente da famosa cena de inundação do barco mais popular de sempre, levou-os, receosamente, ao andar-terraço, onde Raquel, subtilmente, aniquilava as suas presas.

O odor a lavanda e naftalina confundia-se com a gritante acidez da maquilhagem envelhecida. Velhos espelhos compactos e lápis negros dos olhos povoavam as cómodas desorganizadas do apartamento espaçoso.

“Este sítio é fantástico”, apreciou Fábio, admirando a perspectiva amarelada da capital atarefada. “Tem uma vista linda”, elogiou, tomando a xícara quente que Raquel preparara.

“Sou, realmente, muito privilegiada. O tempo por aqui não passa: estou acima dele”, mastigou a idosa que deixara a bengala e a corcunda para insinuar a sua plena beleza de bailarina corcomida pelos anos.

“Afinal até aqui chega”, riu-se Fábio para si sem troça ou carinho.

“Bem, tenho mesmo de ir. Tenho o meu editor há minha espera”, terminou, despedindo-se da paisagem surpreendente encerrada nas mãos manchadas daquela porção de regime.

“Muito obrigada e boa sorte”, desejou-lhe Raquel com um sorriso travesso nos olhos, que Fábio estranhou.

Desceu as escadas, arriscando os frágeis degraus e aproveitando os tectos altos da herança secular.

Sentiu o pulso da cidade nas suas próprias veias. A sua nuca gritava-lhe tão furiosamente. A sua língua, quase dormente, arriscava um sabor a ferrugem e fel.

Estendeu-se, sem querer, sobre a calçada polida e alva da baixa imparável.

Viu o céu inteiro: azul, virgem e ardente. Sentiu a gargalhada última de Raquel na traseira do seu tímpano direito, consciente de que o tempo tinha, por fim, vencido, mais uma vez, a geração seguinte.

As suas histórias ficariam por ali, mas as daquela boémia acostumada com as engrenagens da crueldade metropolitana jamais se esgotariam.

“Será este um hábito por aqui?”, pensou, sarcasticamente, mesmo antes do seu peito insistir numa paragem obrigatória, eterna e nada mais do que natural.

Para ouvir: La Sablier por Alexandra Streliski
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