Legislativas gregas: Lá vamos nós de novo

Em oito meses, três visitas às urnas. Os gregos andam cansados e já pouco ânimo mostram, certos da austeridade que por aí virá. Estarão dispostos a confiar no homem que fechou os bancos, consentiu o controlo de capitais e convocou estas eleições antecipadas?

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“Já sabem que o Tripsas se demitiu?”, perguntei à pequena, mas abundante redacção que povoei este Verão.

Estiquei-me para lá do enorme ecrã do computador que, frequentemente, me escondia das restantes operárias da informação, à espera de um comentário mais ou menos sarcástico (à boa maneira desta classe).

“Parece que o senhor anda a brincar”, acrescentei, sentindo os últimos meses de instabilidade e prejuízo financeiro provocados pela liderança comunista helénica inflamarem-me o bom senso.

“Ele, realmente, parece não estar a ser muito responsável”, retorquiu a minha colega, ainda presa ao seu próprio painel de novidades.

A demissão de Varoufakis deixara-me de sobreaviso.

A esperada leve flexão de retorno ao projecto europeu – ou melhor, o necessário afastamento do quase radicalismo – adivinhava-se, claramente, como corrupção dos ideais da popular campanha do Syriza e daí até ao desmoronamento do governo seriam, apenas, dois passos.

As semanas não foram muitas até acontecer o inevitável e a instabilidade se aliar a uma tentativa paradoxal de pacificação que, por fim, provocou esta nova peregrinação até às urnas.

Tripsas estava desautorizado, sem poder ou suporte. Aos quarenta anos, a bancarrota grega e o acordo, por fim, selado com os credores ficavam-lhe mal.

“Não há paixão nesta eleição, por parte dos gregos”, defende Alexis Papachelas, editor do Kathimerini.

Qualquer que seja o resultado das eleições deste Domingo, a austeridade parece ser o desenlace irreversível.

Sete meses governou um dos lados desta corrida ao governo: Tripsas hoje salienta que lutará melhor contra a corrupção do que um partido do “velho sistema”.

A liderança das sondagens é, contudo, partilhada pela Nova Democracia, a principal força política de centro-direita, a quem o ex-primeiro ministro se recusa a unir em coligação.

“Se o Syriza vencer não haverá estabilidade”, dizem os centristas. “Se a direita ganhar, a Grécia ficará de joelhos”, congeminam, certamente, os adeptos da luta vermelha.

A menos que conquiste 150 dos 300 assentos parlamentos, Tripsas será forçado à coligação ou a uma nova ronda de eleições para a qual estarão os gregos exaustos.

O risco de Grexit, já bastante calado, mas, ainda, não completamente mudo, pesa-lhes sobre a cabeça na companhia dos prazos e das responsabilidade a cumprir.

A Europa, perdida no segundo drama helénico dos últimos meses – os refugiados – vai vigiando este processo (ou a orgulhosa máquina democrática em acção, como gostam de apregoar os puxados à esquerda) atenta e já aborrecida deste baile tão mal dançado que já só tende a piorar.

Valerá a pena regressar àquele que trocou as promessas pela luta desigual (por vezes, petulante) frente aos restantes Estados-membros? Serão, porém, mais anos de asfixia económica e financeira a solução para uma crise que anda, perigosamente, a rondar o político?

Para ouvir: Prélude por Alexandra Streliski
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