Time Lapse: escravos de um futuro sanguinário

Bradley King estreia-se como realizador em Time lapse: uma fita cujo baixo orçamento jamais transparece na mestria da intriga, enredando o espectador até ao último segundo.

Finn (Matt O’Leary) está debruçado sobre uma tela em branco. Concentra-se, franzindo o nariz rectílineo e projectando o seu definido maxilar coberto por uma penugem máscula.

Pintor sem inspiração e senhorio por profissão, Finn vive num complexo de bungalows – que ajuda a gerir – enterrado pelo sonho pouco próspero da arte.

Ao seu lado, Jasper (George Finn), um viciado adepto do dinheiro fácil, e Callie (Danielle Panabaker), aspirante a escritora e namorada negligenciada, resistem ao tempo e às vicissitudes, mergulhando na realidade que os impede de se concretizarem, plenamente.

O curso trivial das suas existências é, rapidamente, alterado, quando, na casa vizinha, encontram uma máquina capaz de fotografar o futuro e, na dispensa, o seu inventor, misteriosamente, morto (ou, presumivelmente, assassinado pelo próprio tempo).

Decididos a utilizar esse conhecimento em seu proveito económico, Jasper, Finn e Callie embarcam numa intriga que, simultaneamente, os sustenta e os escraviza.

Nesta fita de King, torna-se evidente a servidão das personagens ao futuro por duas razões: em primeiro lugar, o medo que o desvio do projectado signifique um destino semelhante ao do seu vizinho guardado na cave; em segundo lugar, a ganância por esse momento próspero que a máquina parece ditar.

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Do primeiro ao último minuto, King aposta num aspecto estudantil, grosseiro e quase amador que não deixa de ser interessante.

Desprovido da grande elegância de Hollywood, Time Lapse sobrevive por si, sem planos ou transições, extraordinariamente, bem conseguidas, nem representações excelentes ou cenários fascinantes.

Na verdade, a realização é bastante capaz (por vezes, mesmo criativa), a coloração é crua, os cenários são parcos, mas poéticos e as actuações, tendencialmente, razoáveis, embora George Finn desiluda frequentemente e de forma flagrante.

Ainda que de baixo orçamento, o filme protagonizado por O’Leary (uma versão subtil, americana e jovem de Jude Law) é surpreendente.

Este trilher consegue o que muitas produções milionárias podem, somente, aspirar: agarra, de modo supremo, o espectador, conduzindo-o em voltas e reviravoltas que não são, de todo, esperadas.

Numa lógica até de compreensão dificultada, o desenlace é uma revelação pouco anunciada.

As personagens são poucas, os cenários não mais que três (dois, verdadeiramente), mas esta é uma intriga tão larga que perdoa tudo isso, mesmo o olhar medíocre de susto que Jasper pretende lançar.

Vencedor de 16 prémios em festivais por toda a nação norte-americana e no Reino Unido, Time Lapse é um projecto que pode olhar com cepticismo, ver de coração aberto, não esperar o melhor elenco, mas morrer [de contentamento] com o encadeamento inesperado da fita.

E pensar que nada disto aconteceria – incluindo, a naturalização aterradora do assassinato – se simplesmente tivessem fechado as cortinas e vivido segundo o instinto natural de cada dia…

Para ouvir: Who loves the sun por Time Lapse

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