Um burlão também chora ou a paternidade é difícil

A mochila atingia a base cabeluda da sua nuca. André sentia a pressão literal da vida sobre os ombros aumentar à medida que seguia pela cidade com a filha roubada pela mão. Amanhã estariam por todo o lado: impressos.

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As escadas gastas pelos imensos visitantes fugiam sob os seus ténis, recentemente, adquiridos.

André seguia à frente, com a gigante mochila de acampamento que enchera com tudo o que acumulara nos seus 32 anos de experiência e com o rebento que fizera brotar há uma década a dois passos dos seus calcanhares.

“Vamos lá, Anita”, incentivou o pai, esperando despertar a filha mal dormida.

“Tenho sono e não quero continuar a andar por Lisboa. Vamos para casa”, respondeu-lhe, quase agressivamente, a oportunidade pela qual abandonara todo o seu património.

Ao longe, o casal de estranhos jamais pareceria sequer familiar.

Ele, com o seu aspecto árabe, cabelo grosso e já longo – apenas, as sobrancelhas denunciavam a influência caucasiana da sua falecida mãe – ela, pequena, macérrima e, notoriamente, branca – somente os caracóis mal penteados da sua juba indiciavam a sua ascendência criminal.

“A mãe nunca vai deixar que tu me leves muito longe”, avisou a adolescente com carinho. “Pai, em breve estarás em todas as capas. Um fugitivo raptor: que bela reputação terei”, acrescentou com sarcasmo.

André estendera a sua mão, pedindo que se apressasse na subida imprevisível da avenida.

O trânsito corria na loucura acostumada do meio-dia. Os olhares (ainda inocentes e inofensivos) multiplicavam-se a um ritmo impressionante.

Tinham de chegar, urgentemente, ao comboio e partir, usando as falsas entidades que lhe haviam vendido na prisão, antes de pertencerem à cruel ribalta mediática.

“Doe-me o pescoço”, reclamou Anita, entregando-lhe o cilindro quase nulo que usava por mala de ombro.

Sobre as suas costas, acumulava agora a parca soma de bens valiosos de Ana e tudo o que a filha conseguira raptar do núcleo vasto que a sua antiga esposa organizara em torno do esposo caído em desgraça.

“Ainda estou para saber, porque guardou a tua mãe as minhas coisas”, comentou, perplexo, na presença da enorme mochila que a jovem trouxera ao local combinado.

“Tens aqui o teu passado. Dá-me o meu futuro e parte sem mim, por favor”, exigiu a quase mulher que, certa vez, derretera lápis de cera castanho, que fizera passar por chocolate de leite, obrigando-o a comer por pura diversão e curiosidade infantil.

“Vem comigo, Anita”, implorou André, sentindo o coração saltar palpitações como um maníaco descontrolado.

A paternidade, esse mistério pouco avisado, assustara-o tanto quanto as contas que depressa começaram a proliferar sobre a banca de pinho na entrada de casa.

Sem emprego – a crise financeira ceifara o seu lugar no topo de uma pequena empresa – e com os fundos reduzidos, vira na burla o caminho certo para esse intenso desafio.

A sua mulher, a ilustre Beatriz, assumira-a como a entrega do seu companheiro a uns rápidos anos de prisão a que não se podia sujeitar: divorciou-se mal o esquema desmoronou, o que não foi demorado, já que o seu talento para tal negócio era bastante reduzido.

“Pai, há seguranças na fronteira. Já pensaste nisso?”, insistiu Anita, sentada no banco azul e encarnado do moderno metro da capital.

“Temos o antídoto”, garantiu. “Tens um antídoto para a tua aparência?”, ripostou ela furiosa.

O som sufocante dos carris prestes a ceder indicava que mais cem metros os depositariam na estação escolhida para o início da partida.

“Mais uns quilómetros, meu amor. Não posso partir sem ti. Foi por ti que o fiz”, mastigou André, cujo olhos faiscavam de insanidade e dedicação.

Anita curvou o pescoço, recolheu as mãos e seguiu.

“Os seus documentos”, respingou a mulher amarga e gorda da bilheteira.

Entregou-os, sem ânimo, percebendo, repentinamente, as mãos fortes do polícia que terminaria a sua aventura.

Morto na praia de um sonho irreal mantido pela necessidade, André regressou à cadeia de onde só anos sem fim mais tarde sairia.

Anita, cúmplice e menor, sofreu um destino triste de tentativa e erro, de correcção estatal forçada que arrebentaria com as suas chances de sobreviver ao seu pai e a si mesma.

No ermo desejo de serem felizes em conjunto, lá desaparecem ambos do universo evolutivo da raça.

Rapidamente, remetidos para as margens, foram esquecidos pelo sistema, pela sociedade e, eventualmente, pelo próprio destino.

“Mesmo as vontades mais justificadas podem ferir”, concluiu, tristemente, Anita, numa noite em que se deitara sobre a superfície áspera do cobertor que lhe ofereceram para aquela breve estada no centro de recuperação juvenil.

Ferozmente, feridos, Anita e André ouviram, por fim, o fôlego faltar, acreditando que separados estariam mais seguros.

Afinal, a paternidade não é para todos – nem mesmo para todos os que, assim, o desejam – a burla é para os inteligentes e a queda é nada mais do que o inevitável desenlace de todas as nossas intrigas.

Para ouvir: La Giulia por Dirk Maassen
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