Como partir o seu próprio coração

O que é preciso para partir o seu próprio coração? Esqueça o amor, a amizade ou os relacionamentos duradoiros, uma boa dose de coragem e aventura deve chegar.

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As minhas unhas assimétricas acarinhavam a coluna macia do animal bicolor deitado no meu colo.

Beijei-lhe a face negra, ela arranhou-me a bochecha com a sua língua áspera, mordeu-me o nariz e miou. Pela última vez, sentia o doce perfume da sua natureza felina a acordar a preguiça teimosa em mim.

Como partir o seu próprio coração? Basta-lhe uma boa dose de coragem e um martelo gigante, daqueles do tamanho de uma mudança inusitada, desnecessária e, intensamente, exigida.

Na tenra casa dos 20, parece-me inimaginável resistir à dor da aventura por muito tempo.

Desde cedo, o mundo parece uma pequena besta propensa a agressões; desde cedo, começamos a ouvir o despedaçar tímido desse mito firme e uno que é a felicidade plena.

O universo conspira para nos mutilar ainda mais quando a sua língua eloquente e quente nos banha os desejos, sedutoramente, e nos propõe mirabolantes projectos de suicídio falso.

Aos 13, ingénua e forte – invencível – tornara-se-me impossível permanecer num espaço confinado pelo conforto.

Hoje, vítima da mesma vontade orgulhosa e quase feliz sinto o ressecar do meu órgão encarnado mais frequentemente do que o recomendável pelos especialistas.

Arriscar uma paixão é uma forma perfeitamente válida de quebrar o seu coração: afinal, é mesmo a mais comum (e sim, não é o amor que o provoca, mas sim quem o decide albergar).

Saltar de um abismo e esperar conseguir voar é, por outro lado, uma das mais cruéis maneiras de o fazer, de perceber o grave aperto do medo, da solidão e da tristeza tolhida perante a presença arrogante do almejo.

Os sonhos, essas maldições bem-amadas, são a principal causa desta patologia tão portuguesa: a saudade.

A saudade é um instinto doente alojado no recôndito lugar onde a razão tende a não chegar.

A saudade é o mar salgado dos nossos dias, dos dias dos viajantes; o prato principal e a sobremesa: a cruz e o prémio.

Como partir o seu próprio coração? Uma boa dose de coragem deve chegar. Do resto se encarregará o destino – não que acredite nesse ser mítico.

Quando a última manhã chegar e sentir o ronronar pálido do automóvel definitivo, ouvir o bater agreste das rodas gastas da mala de viagem nas escadas da sua infância e disser adeus com os olhos rasos de lágrimas ao costume a que jamais voltará com o mesmo espírito, estará, finalmente, quebrado – e, então, talvez feliz. [Esperemos…]

Em destaque: Bronze autumn por Klimt || Para ouvir: Metamorfosis 2 por Philip Glass
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