Self/Less: Sente-se imortal?

Ryan Reynolds protagoniza o mais recente filme de Tarsem Singh, Self/Less (ou Outro/Eu em Portugal), uma obra de ficção científica que oferece um vasto menu de questões existencialistas fascinantes sem jamais dar, realmente, a provar alguma delas.

Damian Hale (Ben Kingsley) vive numa magnífica mansão urbana junto ao Central Park, controla sem esforço a carreira de qualquer aspirante à sua posição e esbanja dinheiro na ostentação barroca da sua casa e do seu guarda-roupa.

“Sente-se imortal?”, pergunta-lhe, contudo, Albright (Matthew Goode), um professor inglês, sofisticado e, suficientemente, louco para acreditar na transferência de uma mente idosa para um corpo novo.

Damian está a morrer de cancro – um dos únicos dois desafios que não foi capaz de resolver na sua longa e próspera existência – e anseia por essa oferta improvável, mas acessível, apenas, aos mais ricos e poderosos do mundo.

Albright disponibiliza-lhe a possibilidade de transferir a sua mente para um corpo saudável e jovem, pretensamente, construído em laboratório para esse fim.

“Está vivo?”, questiona o homem de porte severo e feições requintadas. “Biologicamente, sim, mas está vazio”, apressa-se o visionário a esclarecer, depois de lhe prometer os anos extra que todas as grandes mentes deveriam receber para, assim, atingirem o máximo do seu potencial.

A falibilidade humana, a dicotomia corpo/alma, o sacrifício, a moralidade da engenharia genética e, mais tarde, a validade do próprio Estado social são as premissas fascinantes desta fita de Singh.

Quando Reynolds substitui, por fim, Kingsley, no papel de um Damian mais novo, desencadeia-se uma série imparável de desastres artístico-cinematográficos e filosóficos que desapontam, terrivelmente, o iludido espectador.

É que a profundidade publicitada pelo começo deslumbrante de Self/less não ultrapassa esse período reluzente.

A fita alonga-se em cenas de acção, tiroteios e lutas desnecessárias que agridem a paciência do espectador e pouco acrescentam às suas [verdadeiras] preocupações.

Damian, rapidamente, descobre que o corpo para o qual transportou a sua mente não foi criado, mas vendido por um pai e soldado com sérios problemas financeiros.

O novo corpo (a bela silhueta de Reynolds) não é uma tábua rasa, mas um agregado de memórias – passivas de serem repelidas pela toma de alguns compridos encarnados pouco credíveis – que faz dele um verdadeiro pai de família.

Kingsley actuara, respeitosa e humorísticamente, na melhor parte do filme. A sua elegância transpira para lá do corte cuidado do seu fato ou do mármore impressionante da sua banheira. 

Pouco desse velho Damian prossegue para o novo corpo: Reynolds não encarna o mesmo homem: falta-lhe a classe, o porte e a rectidão.

O seu desempenho espelha não o espírito incumbido ao corpo comprado, mas a personalidade de quem o vendeu.

O novo Damian é jovem, é certo, logo faltar-lhe-á o peso da idade e do trabalho, mas não será plausível pensar no modo como nos movemos como reflexo do nosso próprio carácter?

Kingsley é, por isso, merecedor de um breve aplauso, que não pode ser estendido a Reynolds. Goode, por outro lado, tende a despertá-lo, da mesma forma, com o seu ar maquínico – quase diabólico – de visionário que não tem em conta as eventuais consequências do seu trabalho.

Self/less é, por isso, um sucesso em potencia, que morre na fraca concretização do desenvolvimento do enredo.

A coloração acinzentada, a luz suave e a sonoridade urbana fazem dele um filme, presumivelmente, sofisticado que, velozmente, deixa-se cair no senso comum da acção.

Nem o desenlace consegue salvá-lo, já que arrisca, mais uma vez, a previsibilidade encontrada em outras falsas reviravoltas, pretensamente, entusiasmantes.

 A obra de Singh, a ser apreciada, brilhará pelo uso inteligente dos ângulos bem definidos, pela sua fotografia e banda sonora e pela complexidade de algumas das suas personagens, embora tema, de facto, o seu desabamento perante a imposição de questões, realmente, letais.

Para ouvir: Learning to swim por Dudu Aram e Antonio Pinto
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