A lagoa está-me na massa do sangue

Seis lados tinha o edifício onde me perdi. Esse monumento angular à nobre arte da viagem jamais me enganara com o seu ar simples de granito. No dia em que, finalmente, me decidiu merecedor do seu universo, trouxe-me nada mais do que uma expedição quase planeada ao bosque vivo que tão bem conhecia.

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A torre verde contaminada pela escuridão do tempo e do descuido invadia o horizonte visível da minha pequena – mas requintada – janela.

Deitado sobre a cama derramada, rebeldemente, pelo quarto, ouvia o bater suave das ondas imaginárias da lagoa no cais ficcional que a minha casa de família, pretensamente, constituía.

Amanhecera assim: cinza, em paz e com fome essa besta liquida que rodeava de beleza os monstros de clorofila e madeira que ladeavam o imenso espaço de mergulho não permitido.

“Mais uma semana”, pensei eu, planeando a inexistência de actividades para outro amontoado de horas que passaria a comer nectarinas, a ouvir o vento e a cheirar a humidade quase podre destes lados.

“Pedro, o pequeno-almoço está servido”, anunciou a empregada que mantinha não regularmente. “Obrigada, Cristina. Há compota?”, perguntei, escudando a minha nudez com a porta idosa que terminava o meu refúgio.

“Sim, senhor, de uva e figo. A senhora Helena deve estar a chegar”, informou-me, por fim, a mulher de idade não avançada.

Saltei para a madeira sólida que revestia o chão caro desta casa, escolhi o conjunto formal de visita e devorei até ao último pedaço a refeição, cuidadosamente, preparada com a herança não merecida de que viviam as últimas gerações da minha família.

“Bom dia, caro Pedro”, disse-me, sedutoramente, a minha mãe – essa elegante criatura que aborrecia o meu cérebro e não deixava o meu passado morrer. “Mãe, que bom vê-la”, menti.

“Como vão as suas personagens?”, questionou ela, seguindo o costume irritante que adoptara desde a minha última grande obra, há 15 anos, quando o meu sucesso era, ainda, uma asserção categórica e apreciável.

“Muito bem, julgo eu. Ainda não as conheci”, ironizei, sorrindo-lhe travessamente em desafio.

“Pedro, o mundo esquece rápido quem mais ama. Há muito que estás perdido, não deixes fugir mais cinco anos e o que resta da tua fama. Não percebo esse bloqueio. Escreve!”, gritou-me ela quase furiosa – jamais furiosa, apenas levemente exaltada ao jeito das grandes damas, que acumulam problemas e formulam outros dilemas por diversão.

“Bem, está na minha hora. Tem um bom dia”, não adiantei, sentindo o desespero aflorar.

No dia em que a minha última obra ocupou os devidos lugares nas mãos dos meus queridos leitores, percebi que já derramara tudo de mim numa vida longa de literatura e imaginação falhada.

Soube, então, que a minha mente tinha ficado deserta e extinta, propensa apenas à ficcionalização de universos que não podia oferecer a um conjunto culto de seres arrogantes à procura do sentido da vida.

O bater sonante das minhas solas sobre a calçada verde e não áspera arrepiava-me. Sentia-me à beira do precipício neste vazio total deixada pelo homem que um dia fora.

Em frente aos meus olhos, cresciam os ângulos da casa perdida no bosque, esse tesouro próspero e escorregadio que nunca me convencera da sua inocência.

Agredi a fechadura enferrujada e senti o incrível odor da floresta fresca bem longe deste vale infernal e hereditário.

“Nas minhas veias corre-me o leito deste lago”, concluí.

O baque agudo da movimentação do edifício surpreendeu-me. Senti a rotação sofisticada e a transformação para quem sabe o outro lado do núcleo terrestre daquela porção de História.

Saí, curioso até ao bosque que, agora, o engolia.

“Bem-vindo, senhor. Estivemos à sua espera nos últimos 15 anos”, sorriu-me a extraordinária criatura de madeira e mestria: uma escultura animada e falante.

“Já chegou mais alguém?”, tentei. “Desde a sua avó que vivemos sem regente. Bem-vindo ao vale dos seus”, repetiu.

Os olhos castanho-carvalho daquele ser meio homem, meio gato, meio madeira deixaram-me a certeza de que este era o reino a que sempre pertencera.

A migração flagrante da minha mente fora nada mais do que a preparação para a necessária mudança para um outro universo, onde esses seres que me haviam habitado poderiam, finalmente, conviver ao meu lado.

“Estou na minha mente?”, resumi. “Estamos todos”, explicou a minha orgulhosa obra. “Ficarei aqui para sempre? Mas o que me acontecerá?”, senti o pânico do desaparecimento.

“Se cá decidir ficar, a lagoa tratará da sua existência: dará o seu corpo por falecido”, acrescentou com convicção a criatura.

Sentei-me sobre o musgo intacto que cobria a terra fria sobre os meus pés.

Pensei, senti a nuca latejar e o peso das pestanas cansadas – e que me ardiam – sobre o verde-liana que conservara na coloração do meus olhos.

“Mas que tenho eu a perder?”, resolvi congeminar, acenando ao meu servo/criatura e já disposto a permanecer dentro do universo que suspeitara existir pelo flagelo da minha mente.

Para ouvir: Mad Rush por Philip Glass
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