Colocada: a universidade é uma aventura

42 mil aventureiros, 6 semestres e dezenas de desafios preparam o seu arranque a partir de hoje. Desde 2011, que o ensino superior não acolhia tantos colocados, estarão todos à altura do jogo?

28313c4e09efd9d0e1bdd46732a550d9

Galguei as escadas alcatifadas pelo resíduo mole da minha infância, invadindo a cozinha iluminada, onde se sentavam as anciãs em torno da pequena caixa faladora caída em perdição.

“Entrei. Entrei”, disse-lhes por um fim. Depois, desatei num riso-choro histérico e aterrador – único na minha já velha existência – e voltei a correr até ao ecrã gritante do computador só para confirmar que a minha primeira opção tinha sido, realmente, satisfeita.

“O que se passou?”, perguntou, então, a minha avó à distância, espantada perante o resultado óbvio, esperado e planeado, nos últimos cinco anos.

“Vou para Lisboa”, respondi com os olhos secos, o coração aos saltos e a respiração ofegante de quem teme o abismo iminente. “Tenho mesmo de fazer as malas”, revelei, já sem parte da minha acostumada pessoa.

Corria, nessa feliz ocasião, aquela noite de sábado – até aí tranquila e segura – que instigou a composição imutável de quem viria a ser; mais, que de imediato começou a modificar quem sempre julgara constituir.

“Se os outros conseguem, porque não tu?”. Respirei fundo, senti o pulso normalizado e comecei a organizar a pequena cápsula desta vida antiga que levaria a um país, completamente, distante.

Esse frenesim da meia-noite abreviada, da enchente facebookiana e da proliferação das malas de provisões alimentares num aeroporto a transbordar de lágrimas disfarçadas destes pequenos heróis rebeldes até hoje surpreende a minha alma.

Como somos nós capazes de, sem nada, exigir tanto?

Aos 18 [presumivelmente], cortamos, finalmente, esse confortável cordão umbilical sem esperar nada além de uma grande aventura; sem jamais estar prontos para a fome originada pelas nossas pobres habilidades culinárias; sem reconhecer a nossa incapacidade intrínseca de viver sozinhos, desprovidos desse útero próximo de calor que até aí nos acolhera.

“Foste tu que o quiseste”, sublinha, frequentemente, a minha mãe. Eu sorrio, travessamente, e respondo-lhe que não me arrependo, mesmo nos dias em que a viagem parece atingir um vale crítico de dificuldade.

Dois anos de jantares criativos, pestanas queimadas e acidentes resolvidos conferem-me a experiência necessária para concluir que estes serão os melhores anos da sua vida.

Acredito, piamente, que cada desafio impossível que a universidade ou que a migração colocam são dispositivos, estrategicamente, pensados para nos fazer mudar, evoluir, maturar até ao ponto em que a nossa própria companhia começa a ser-nos agradável; até ao ponto em que o cálice da liberdade que nos concederam começa a parecer um privilégio incomensurável a que nos agarramos com unhas e dentes.

A universidade é uma aventura de leituras impossíveis, conceitos estranhos e novidades assustadoras que nos transformam em criaturas pálidas, vampíricas, organizadas, sedentas e preparadas.

Quatro meses de vida autónoma cultivaram a extraordinária vontade de, pela primeira vez, conhecer o mundo sozinha; oito fizeram-me perceber esta alteração excelente: começara a pensar.

A arte do pensamento (da indignação, inquietação e das tonturas motivadas pelo stress) é a vertiginosa qualidade dos empenhados: sofremos até à última gota o mundo, digerimos a realidade e, entretanto, começamos a reconstruir o que nos rodeia ao extremo de não reconhecermos a nossa própria existência.

A universidade é uma aventura de retoques a qualquer espírito fraco e adorável – pelo menos, deve ser – de grandes questões e calhamaços que nos curvam de forma indelével o esqueleto.

Aos milhares de colocados – há quatro anos que não eram tantos – bem-vindos ao parque de diversões: ali há frente estão os volumes que vos esmagam, aqui as pilhas que vos insuflam, em todo o lado o oxigénio que, progressivamente, vos irritará os pulmões até ao ponto de não conseguirem permanecer calados.

Para ouvir: Train por Niklas Aman
Anúncios

2 pensamentos sobre “Colocada: a universidade é uma aventura

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s