Z for Zachariah ou o vale dos sobreviventes

Nomeado para o Grand Jury Prize no Sundance Film Festival, Z for Zachariah (ou Os últimos em Portugal) revisita a velha premissa da eminente extinção da humanidade, trazendo-lhe a perspectiva fresca de uma misteriosa relação carregada de suspense, tensão e subtileza.

Coberta com uma capa de plástico, Ann Burden (Margot Robbie) vagueia pela cidade destruída pelo desastre nuclear que fez dela a última mulher no mundo.

Ann é jovem, ingénua e solitária: sobrevive num vale que, milagrosamente, não se encontra contaminado pelo material radioactivo que, em poucas horas, pode matar o mais resistente dos humanos.

O fim do mundo pelos olhos de Ann parece-se em nada com os retratos dramáticos do Apocalipse oferecido por tantas outras fitas, onde a comida escasseia, o oxigénio e a água são bens raros e o alojamento é um luxo de vidas anteriores.

Z for Zachariah leva-nos a um deslumbrante vale, onde a considerável casa da família Burden se mantém sólida e preparada para qualquer desafio que a natureza coloque.

A esta bolsa de vitalidade junta-se, rapidamente – ou um ano depois, segundo o enredo do filme de Craig Zobel – John Loomis (Chiwetel Ejiofor, vencedor do Óscar para melhor actor, em 2013, com 12 anos de escravidão), um cientista nos seus 30, negro, ateu e empenhado na reconstrução da humanidade.

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Ann e Loomis formam um par, estranhamente, reminiscente da dupla original (Adão e Eva) até serem interrompidos pela presença, longamente, anunciada de Caleb (Chris Pine), um mineiro religioso, jovem e branco que perturba a harmonia estabelecida pelos sobreviventes e faz ferver os seus instintos.

O filme, vagamente, inspirado no romance homólogo dos anos 70 de Robert C. O’Brien é, por isso, uma delicada figuração da própria condição humana.

Loomis deseja Ann, que se deixa seduzir por Caleb, um homem, subtilmente, movido pela cobiça.

O ciúme, a vingança e a tensão fazem deste um trio interessante, na justaposição pouco convencional de idades, raças e essências.

Neste cenário distópico parco em personagens, a complexidade das silhuetas existentes é mais do que suficiente. Loomis quer, ardentemente, o progresso; Caleb finge dedicar-se, inteiramente, à fé e à união.

O resultado deste choque de intenções é o desenlace deslumbrante que nos deixa por um fio e nos arremesa para uma profunda reflexão.

A vilania mancha, além disso, ambos os seus carácteres de uma forma tão diferente que o ambiente parece pronto a descarregar um intenso choque eléctrico. 

A atitude quase generosa de Loomis pode comover mais do que a arrogância disfarçada de Caleb, mas não deixa de ser, extremamente, letal.

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Não se trata, por outro lado, de um triângulo amoroso sensacionalista, mas da cooperação conveniente alimentada pela necessidade e pela ocasião que faz sobressair dois instintos particulares: a certeza de que a raça humana tem de proliferar e a convicção de que, no último momento, será sempre “matar ou morrer”.

A coloração azulada faz desmaiar todos os planos, levando-os, lentamente, ao detalhe e à beleza.

Zobel consegue, efectivamente, transmitir a palpitação do micro-poder pelo qual lutam os homens e a insegurança, a candura estranha e inexperiência de Ann através de uma extraordinária atenção à luz e ao pormenor.

“A razão pela qual parti foi porque estava à procura de um lugar como este, sem acreditar, nem por um segundo, que existisse”, confessa Loomis.

Em Os últimos, o conhecimento digladia, flagrantemente, Deus, a sinceridade o capricho, num magistral jogo de xadrez que promete colocar o improvável sob a lupa atenciosa de uma espécie reduzida a três (ou melhor a dois…).

O filme protagonizado por Robbie, Ejiofor e Pine (cujas actuações enfeitiçam) invoca com destreza a dinâmica do sucesso Ex Machina, adicionando-lhe a rudeza do espírito humano e a incomparável beleza de um oásis derradeiro.

Para ouvir: Outside the valley por Heather McIntosh

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