Chá dos Açores, meus amores

Nas encostas húmidas e ácidas de São Miguel, crescem as folhas dos chás mais antigos da Europa. O Chá Gorreana celebra 132 anos, com a promessa de manter a tradição e o espírito empreendedor.

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As folhas saltitam sobre o tabuleiro que treme e as conduz aos dois esmagadores cilindros da maquinaria Marshalls, uma relíquia inglesa, do início dos anos 40, perdida em terras micaelenses.

O inconfundível odor da clorofila enche o ambiente e cega o olfato. O ruído rítmico do enrolador de chá e o aroma a verde moído preenchem o interior de um largo edifício branco que sobre a porta traz pintado “Chá Gorreana”.

As portas verdes da fábrica de chá mais antiga da Europa abriram-se aos visitantes, ainda no princípio do século XX. “O meu avô percebeu que se a abrisse ao público, as pessoas vinham e levavam a fábrica dentro de si”, comenta Madalena Mota, uma das atuais proprietárias do Chá Gorreana e quinta neta de Ermelinda Gago da Câmara, com quem tudo começou, em 1883.

Os visitantes passeiam, livremente, pelas salas de produção e apreciam as fotografias a preto e branco das plantações e dos trabalhadores de tempos idos que cobrem as paredes.

Num recanto mais escondido, oferece-se água quente e pacotes de chá a quem quiser provar o que aqui mesmo é cultivado, colhido, tratado e empacotado. As aromáticas xícaras circulam pelo espaço pequeno, onde antigos geradores de eletricidade e chaleiras de ferro estão em exposição.

Foi aqui que o turismo dos Açores começou. As pessoas faziam disto recreio. Vinham ver a eletricidade”, conta Madalena. “Foi aqui que a revolução industrial regional nasceu, com a hídrica do meu avô”, que até hoje abastece a fábrica.

Os movimentos repetitivos das máquinas de latão e madeira são alimentados pela energia contínua produzida pela própria fábrica. Esta é “uma das últimas indústrias do mundo a ser sustentada por este género de energia”. Madalena confessa que se tivesse de recorrer a outro tipo de abastecimento, já teria fechado as portas, pois os seus concorrentes – “a China, a Índia, o Bangladesh” – têm mão de obra e energia muito mais baratas.

O Chá Gorreana transpira tradição em cada um dos seus 37 hectares de terreno e em cada etapa do seu processo de produção. “O fabrico de chá no arquipélago desperta grande interesse, porque, além do seu caráter único, no contexto europeu, é um núcleo museológico que continua a produzir de forma tradicional”, sublinha João Bettencourt, Diretor Regional do Turismo dos Açores.

O zumbido que ensurdece levemente quem por aqui passeia é resultado de um processo que ainda segue o método ortodoxo. “É a mesma forma de cultivo e produção que usavam os meus avós”, confessa Madalena. “A planta é colhida, vem para a fábrica e aqui é constantemente dividida. Podia usar o método flush, que funciona por cortes e é menos dispendioso, mas essa é a forma que toda a gente utiliza”. A tradição é uma carta na manga desta produtora que, embora comercialmente pequena, fornece “chá de grande qualidade”.

Os produtos que de cá saem estão livres de herbicidas, pesticidas e fungicidas, vantagem que Madalena reconhece só ser possível devido à natureza ácida e húmida dos terrenos micaelenses.

As características das terras açorianas são responsáveis, ainda, pelo sabor menos adstringente dos chás Gorreana. “São fáceis de tomar”, diz Madalena. “Os ingleses chamam-lhes fresh. Não têm o fishy taste que outros chás tendem a ter”.

Margarida Gonçalves, professora na Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa, refere que o menor teor em alguns compostos fenólicos garante a produção de um chá mais leve.

“As condições do solo, da produção e da folha tornam-no diferente dos demais chás que se encontram no mercado”. Margarida orientou a tese de doutoramento de Alexandra Campos, que se empenhou numa análise das propriedades nutricionais e antioxidantes dos chás micaelenses em comparação com outros chás mais comerciais.

“Uma das conclusões a que o estudo chegou foi a de que os chás Gorreana têm benefícios para a saúde, devido a alguns dos seus compostos fenólicos”, reforça Margarida. O combate ao stress oxidativo, ligado à poluição, à alimentação deficiente e à vida agitada, bem como o bom funcionamento do sistema cardiovascular são alguns dos ganhos associados ao consumo destes chás que a professora universitária aponta.

“Estes compostos podem ser extraídos e adicionados a iogurtes e bebidas ou até mesmo a cosméticos”, sublinha Margarida.

O chá Gorreana é “tradição e inovação”, assegura Madalena. “Vamos aproveitar as sementes e as folhas que são cortadas no inverno para fazer óleos essenciais”, promete. Madalena pretende manter a tradição e renovar as energias, tomando a mesma missão que os seus antepassados, “pioneiros em tantos e tão importantes campos”, assumiram.

Em breve, iniciar-se-á a fabricação de “novos chás com sabores cá da ilha”, que, por entre gargalhadas, insiste guardar em segredo.

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Levar a fábrica no coração

A sua boa disposição e inegável amor à fábrica fazem deste um ambiente familiar, quase doméstico. “O Gorreana é como se fosse uma pessoa de família”, confessa.

Madalena respira chá desde o primeiro minuto do seu dia, não vivesse ela na casa senhorial semeada nestes campos ondulados e verdejantes.

Um caminho estreito de pedra de lavoura leva o curioso visitante a um pequeno lago com nenúfares no centro e flores selvagens em redor. Ouvem-se rãs. Dança o sol da manhã na superfície esverdeada. Para lá dos arbustos que rodeiam este oásis improvisado, veem-se as janelas do lar de Madalena, onde alguns turistas tomam chá.

“Os turistas querem conhecer as plantações e provar o chá”, revela Olinda Silva, responsável pelos circuitos turísticos da Agência Panazorica. “Oferecemos um pacote de comida típica. A dona Madalena prepara um lanche com queijadas da Vila, bolos lêvedos e com o chá Gorreana”, informa.

A fábrica vive de turistas e trabalhadores, que se confundem na agitação bucólica. “Há visitantes que só querem explorar, estar de forma independente. Outros querem fazer visitas guiadas. Outros querem lanchar em minha casa com um bule de prata e serviço Vista Alegre. Tudo o que eles quiserem, tudo o que pedirem, eu dou”, confessa Madalena.

Neste museu em constante movimento, o visitante pode ser um explorador curioso, livre de qualquer orientação, embora tenha sempre à sua disposição trabalhadores “prontos para o auxiliar”, enfatiza.

Talvez por isso se leia em torno do quadro que avisa “Compra de chás” tantas mensagens escritas desajeitada e carinhosamente. “Chá dos Açores é como os meus amores”; “Que chá maravilhoso. Fiquei viciada!”, aparecem entre tantos nomes de família e saudações em idiomas diversos.

Em Roma, estava Madalena no Museu do Vaticano, quando a guia a reconheceu com um grande sorriso. “‘É do Chá Gorreana’, disse-me ela”, relembra. “Tinha cá vindo e falado comigo. Os visitantes do museu que estavam comigo perguntaram-me se eu era famosa. Eu disse-lhes que era famosa na minha terra, que tem este tamanho”, diz, satisfeita, mostrando nem metade do dedo indicador.

O chá Gorreana tem cultivado fama em todos os continentes. Da Noruega, da Finlândia e até mesmo da Austrália, chegam postais e cartas, encomendando mais alguns pacotes da produção micaelense.

Na Suécia, na Polónia, na Alemanha e em França, já estão disponíveis em supermercados, sendo estes dois últimos os países que mais consomem o que aqui se produz.

Esta fábrica, que anda nas bocas do mundo, já acolheu personalidades igualmente conhecidas. “No tempo da minha avó, veio cá o Jonh Wayne. Depois, o Prémio Nobel da Medicina, Craig de Mello. O gerente da Rolls Royce. Ximenes Belo. Os netos do produtor da maquinaria que usamos. Muita gente”, enumera Madalena. “Mas todos os visitantes são tratados como celebridades”.

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Uma xícara de histórias

Entre o bulício da Marshalls em ação e o cheiro do chá acabado de preparar, as paredes cobertas por cortiça, onde se prendem centenas de cartões-de-visita exigem atenção.

O meu pai ficava ali no antigo bar, do qual só restam aquelas paredes, todo o fim de semana, das oito da manhã às nove da noite, a vender e a dar chá, a conversar com os turistas, que lhe ofereciam os seus cartões”, conta Madalena.

Hoje, as memórias de cartão retangular multiplicam-se de tal modo que frequentemente são separadas, por países, em caixas que darão origem, mais tarde, a um museu.

No final deste ano, o Museu Carlos Machado começa a trilhar este percurso com a exposição “Chá, um caso de sucesso” (patente no Núcleo de Arte Sacra de 2 de Outubro a 13 de Dezembro).

Foram recolhidos registos fotográficos, sonoros, videográficos e escritos. “Todos esses materiais irão concorrer ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial que decorre de uma convenção com a UNESCO”, informa Maria Albergaria, uma das responsáveis pela exposição.

“O Chá Gorreana é uma das manifestações imateriais que mais me fascina”, confessa Maria. “A exposição, que terá um lado artístico e um lado antropológico muito importante, é o casamento entre um gosto pessoal e um gosto profissional”, explica.

Quando a luz do museu se apagar e as lembranças voltarem ao edifício perdido entre os tufos verdejantes, Madalena quer fazer a sua “Casa da Cultura de Chá”, onde poderá dar a conhecer a todos os visitantes os pioneiros que enchem o seu passado.

Por agora, as memórias ficam derramadas no tecido quotidiano da fábrica.

No jardim, uma banheira de mármore branco, onde crescem petúnias roxas, alegra os traços senhoriais da antiga casa de família. Na sala de chá, quadros a óleo retratam antigos rostos cansados pelo trabalho duro do cultivo. No espaço ao lado, o ar escuro é cortado pela luz dos armários, onde estão empilhadas balanças enferrujadas, chapéus de palha, telefones desusados e frascos de vidro repletos de folhas enegrecidas, cujo rótulo gasto informa serem restos das colheitas de 1958.

Os olhos perdem-se nestes pedaços de história amontoados. As mãos conhecem o calor reconfortante de uma chávena escaldante de chá verde, uma das quatro variedades aqui cultivadas. Os ouvidos adormecem na balada morna da Marshalls incansável. A boca descobre o aroma leve das folhas ali mesmo transformadas. O nariz encontra o odor a clorofila manchado pelo fumo provocado pelo que se desenrola do outro lado da parede.

Um monstro prateado começa a fumegar, sinal da secagem das folhas que ainda há pouco eram enroladas. Todas as 40 toneladas de chá que serão produzidas este ano passarão pelo estômago desta besta histórica, depois de exigirem o amor e a dedicação das 40 famílias que a fábrica emprega.

No início do século passado, os visitantes “vinham ver uma fábrica do modelo industrial a trabalhar. Entravam aqui e viam isto tudo a mexer. Entrar aqui era como entrar na NASA”, conta Madalena.

Hoje, os curiosos procuram a fábrica para conhecer a maior e mais antiga produção de chá na Europa. “Há três outros jardins de chá, cujas plantas vieram daqui, na Cornualha, em Espanha e na Itália”, explica Madalena. O da Gorreana é o único que existe desde o final do século XIX, marcando a introdução desta cultura na Europa.

Mantém a passagem dos tempos bem visível como se as fotografias, as maciças chaleiras de ferro e as ferramentas enferrujadas fossem rugas orgulhosas.

Este fragmento de memória guardado entre a vivacidade dos campos de chá e o colorido das azáleas, “é uma mais-valia que valoriza a oferta turística do arquipélago”, elogia o Diretor do Turismo Regional.

Por aqui, passam, anualmente, milhares de turistas. “Chegam mais aqui do que à Lagoa do Fogo”, ri Madalena. “O circuito Furnas – Nordeste, do qual faz parte o Chá Gorreana, recebe todo o ano muito turistas”, confirma Olinda.

Na sala de chá, os janelões deixam descobrir o mar inesgotável da ilha, as falésias férteis, os céus permanentemente manchados e um par de raparigas asiáticas que, no meio da plantação, alinham os sorrisos para a câmara fotográfica. Cá dentro, um peixinho doirado mergulha entre duas xícaras e um bule estampado.

A vida na fábrica revolve constante e inexoravelmente em torno desta paixão por molhar os lábios dos cansados viajantes, dos conhecedores ou, simplesmente, dos apreciadores deste néctar.

As chávenas de chá vão sendo servidas com leite e açúcar, não à maneira inglesa, mas segundo a tradição que dava aos agricultores energia para trabalhar e amar estas terras.

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