Agnosticismo: cepticismo morno ou eco de Tomé?

A fé, essa disposição surpreendente que, há séculos nos vem dividindo, passa agora em revista pelo olhar de quem acredita ser impossível julgar a presença de um criador omnipotente que se quer manter anónimo.

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A primeira vez que encontrei alguém expressamente não católico, senti a palpitação de um outro mundo que conspirava à parte deste universo em que me encarcerara. Tinha, então, já 16 anos.

“Como assim, professor?”, perguntou-lhe uma colega minha, usualmente, demasiado interessada na vida privada de quem não devia.

“Sou agnóstico”, respondeu-lhe o homem confiante e indisposto a adiantar pontos ou explicações acerca da sua decisão tão pouco convencional.

Cresci no seio de uma comunidade, tradicional e cinicamente, cristã.

Levaram-me à missa uma porção de vezes, despertando em mim algum entusiasmo pelo cultivo de uma fé alegre, leve e conveniente.

“Somos católicos não praticantes”, dir-lhe-ão os habitantes deste arquipélago tão crente, inconscientes do paradoxo que acabam de contrair.

Dediquei dez anos de horas extraordinárias ao estudo mal planeado desta religião que me atribuíram ao nascer; longas horas de jogos ultrapassados e sermões antiquados (por vezes, irritantemente, sexistas) que, lentamente, me expulsaram desse círculo restrito de pessoas que aproveitam a vida, rezam e depois vão ali cometer uns pecados para ter do que se desculparem.

Fiel a qualquer princípio que decida adoptar – leia-se teimosa que nem uma burra ou melhor leal a mim própria – confundia-me essa moral depravada e pouco solidária de todos os dias encimada pelo cultivo domingueiro de rezas atropeladas pelo sotaque e, tantas vezes, vazias mal o salto tocava na pedra áspera do adro.

Depois vieram os anos de independência total, chegaram os fins de semanas de estudo e ócio e as manhãs tão mal dormidas que nem se podiam ocupar de tal tarefa.

“O Domingo é o dia do senhor”, explica-me sempre a minha mãe, cuja assiduidade presencial, frequentemente, é substituída pelos cupões de crença individual e pela certeza de que com tempo e atenção consegue fazer mais em casa do que num espaço onde se comenta mais a indumentária e a vida conjugal que a homilia.

Ao Domingo lá confio eu no descanso com a certeza de que sem ele morreria tão mais cedo e exausta, embora recuse a viagem propositada a um templo que, progressivamente, decai e expulsa qualquer fiel íntegro.

O agnosticismo ou a consciência de que a razão humana é incapaz de reconhecer uma qualquer divindade tem assumido grande parte do meu espírito, nos dias em que a solidão existencial parece gritar.

A adolescência – essa fase, subtilmente, escura – trouxe-me a certeza disfarçada de um conflito: sentia-me partida entre o hábito e o desconhecimento de um ser superior omnipotente que, admitamente, pouco ou nada fazia.

Ardia o livre arbítrio, o mal, o Éden, o machismo, a vida eterna e a benevolência discriminatória sob a minha pele jovem e inexperiente.

Custava-me pensar num princípio dos tempos humano e numa criatura suprema que se dedica-se ao cultivo de homens – ou fantoches autónomos – tendo ela à sua disposição infindáveis possibilidades.

A dor de perder parte do meu coração – e da minha família – levou-me a acreditar que tinha de haver algo para além desse fim abrupto que me furtara a raiz de tudo.

Esquecida desses rituais entranhados na respiração húmida do povo açoriano, comecei então a perceber que, ainda que incognoscível, talvez possa existir algum criador benevolente que empenhe as suas horas imortais na observação desse delicioso macro reality show.

Assumi-me, por fim, agnóstica deística: certa da incapacidade da razão humana de penetrar o reino do sobrenatural, mas tentada a admitir a existência dessa presença, irreversivelmente, desconectada de qualquer religião.

“Não temos culpa que sejas ateia”, atira-me, por vezes, o exemplo do costume quotidiano que partilha do mesmo sangue que eu. “Não sou ateia”, revelo, já sem conseguir a sua atenção.

Não sou São Tomé, isto é, não espero propriamente ver para crer, mas reconheço que qualquer julgamento deva ser suspenso.

Estou inclinada a acreditar, mas ainda não cheguei, propriamente, aí.

Sinto-o, frequentemente, no canto obscuro da minha alma – essa substância metafísica que, simultaneamente, me faz adorar a responsável por esse meu afastamento: a Filosofia.

Recordo um momento singular de iluminação e profunda fé; acompanho, atentamente, a evolução dessa Igreja que me viu nascer e ainda assim escolho permanecer céptica, mas não cínica, na fé de um poder magistral que nos reserva a inteira vontade de mudar o futuro e o mundo.

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