Se a virem por aí, estou aqui à sua espera

O repetitivo mecanismo de amanhecer insistia na balada melancólica, cada dia, menos atraente e eficaz. O corpo morto da adolescente que amava mantinha-se imóvel mesmo face ao movimento estrangeiro de umas mãos que agora procuravam o ecrã táctil da besta histérica e que, mais tarde, encontrariam a superfície gélida do dispositivo estranho que lhe roubaria a presença.

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Saltei para o peito descarnado, progressivamente, emagrecido pela crença na inevitabilidade da sua missão e beijei-lhe o nariz cuidado. Senti o doce sabor a hidratante e tónico na áspera e ultra-sensível camada que me protegia a língua.

Tentei erguê-la. Procurei o seu rosto. Permaneci nesta desconfortável posição junto à respiração lenta e profunda do monumento caído sem sucesso.

“Inês, acorda”, berrou, por fim, o alarme máximo gravado pela minha dona, na esperança de se conseguir motivar a si própria. “Porque é que tens que ser tão exigente?”, gritou-lhe de volta o ser anímico que hoje ocupava a cama da minha outrora calorosa criança.

Ouvi-lhe os pesados passos. Corri ao seu lado, confiante na refeição abastada de um espectro que me abandonaria por mais de 12 horas. Sorri-lhe – ela pode dizer que lhe miei, mas não dei por isso. Acontece.

Deixei o alimento granulado brincar no centro azedo dos meus maxilares. Os meus caninos afiados gargalhavam perante esse ridículo desafio inexistente.

Reparei no abuso de Inês: duas colheres de pequeno-almoço por certo garantiriam a minha obesidade. “Estará tudo bem? Olha a minha linha”, respondi-lhe, reflectindo anos de um hábito anoréctico que vi gerar nesse monstro vasto de carinho.

“Amor, cuida de ti”, disse-me, acariciando as minhas mãos, imaculadamente, negras. Ousou cheirar a minha lavagem recente. Ouvira-a dizer, certo dia, que adorava o inexplicável odor a sal e esperança deste meu casaco natural.

A sua silhueta elegante – impressionante – seguiu até ao lavatório. Chocou-me o amontoado de toalhas que, cuidadosamente, Inês organizou em seu torno.

Descobri o revólver carregado junto ao tubo hortelã do costume. A minha cabeça pequena, frágil, galante e flexível roçou o revestimento enegrecido do assassino de metal.

“Vá lá, deixa-me ir”, pediu-me Inês, dispensando duas lágrimas grossas que não esperava completamente. Saltei até aos seus pés, consciente da necessidade de migrar até à estação de limpeza diária.

Lavar-me-ia, de novo e deitar-me-ia ao sol. Essa rotina sagrada, inviolável em qualquer ocasião, morreu, contudo, neste fatídico dia de solidão.

“Pum”, declarou a besta esmagadora. Vi-a cair, essa criatura poderosa, logo depois da sombra do que fora Inês correr até à alcova improvisada.

Os seus olhos claros dançavam ao sol. A ferrugem combinava estranhamente com cloreto de sódio. Essa lagoa de Inês vermelha espantou-me, moveu-me, fez-me acreditar que a perdera para sempre.

Afinal, não podia ela expelir-se tão imensamente e sobreviver.

Sentei-me ao lado dessa árvore rija e teimosa. Lambi-lhe o nariz, crente no movimento seguinte: uma rápida fuga.

O meu coração manteve-se imóvel. Quis tê-lo de volta. Levá-lo ao quintal iluminado, mas roubaram-mo, numa cama improvável de plástico e vermelho, esquecendo-me.

Abriram-me a porta, onde continuo sentada à espera dessa Inês reciclada e livre desse continente encarnado de pessimismo que lhe corria sobre a bela e suave face que beijei durante anos e que anseio reencontrar.

Se a virem por aí, digam-lhe que aqui estou à sua espera debaixo do sol húmido desta terra doentia que me vem matando sem conhecer a imperativa demanda da minha nobre guardiã que um dia voltará para me resgatar.

Para ouvir: Architecture of the loss por Valgeir Sigurosson

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