O Verão voa e, daqui a pouco, eu também

Três semanas é tudo o que sobra desta anunciada vitória sobre a exaustão: são 21 dias para racionar a energia, vegetar ao sol e, sofregamente, começar a pensar em voltar à doce realidade da distância.

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O meu desporto favorito? A doce arte de fazer listas e organizar o tempo.

“21 missões para cumprir em 21 dias”, chamei-lhe eu, ansiosa pela oportunidade de dormitar no sofá até ao nascer do sol na companhia agradável desse galante Harvey Specter.

Petrificada perante o amontoado de promessas que não cumpri nesta oferta divina que são as últimas férias grandes, acrescentei mais umas explorações espontâneas – provavelmente, muito perecíveis – à vontade eterna de escapar do sentimento de aprisionamento que esta ínsula pode gerar.

“Descobrir uma nova praia; tomar banhos de sol, nas Calhetas; fazer limonada de morango”, escrevi eu, no pequeno e colorido bloco de notas sobre a atarefada mesa da redacção, consciente da natureza efémera desta estreita passagem até ao derradeiro dia do adeus.

Vou roendo a tampa da caneta, nervosa, pensando no destino turístico a que me adoraria entregar sem desperdiçar estas horas preciosas de conforto.

“Poderia, facilmente, ficar por aqui”, concluo, sorrindo até perceber o sufoco em que vive o meu coração, nesta gaiola doirada perfeita para a ocasional e prolongada dormida, mas perigosa para uma viagem perpétua.

A instabilidade – essa besta que, nos últimos dois anos, se tornou na minha melhor amiga – tem esse dom mágico (irreversível e incomensurável) de nos manter nas pontas dos pés – esbeltos – prontos a cometer suicídio ou a gargalhar, a sentir o peso do mundo sobre os ombros e, sobretudo, a jamais aceitar a ideia convencional que é a felicidade.

“Vens cá acima? Já te resta pouco tempo?”, chantageia-me, divertidamente, a minha irmã idosa. Eu acuso a abundância de ocasiões que, ainda, partilharemos, sentindo o gritante despedaçar desta vontade odiosa de ficar e aproveitar o Sol morno dos Açores.

“Tenho que voar”, berro à minha alma bipolar, que mal sabe se prefere a inocência ou a luta, que não se importa com a rotina e me atrofia, constantemente, a calmaria.

21 dias; três semanas: dezenas de aventuras a aguardar investimento, um coração que exige paz e o espírito agitado de quem começa a reconhecer a impossibilidade de estacionar.

O isolamento é uma erva daninha para a grandeza: é meigo, saboroso e apetecível.

Resistir-lhe é, inexoravelmente, a mais dura batalha a que alguma vez me submeti: é o regresso doloroso àquela noite em que a euforia e o terror se misturavam num riso-choro compulsivo perante o ecrã gritante da aceitação.

Fotografia:  Lisboa por Isabel Patrício

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