Lugares escuros ou os montros em nós

Depois de Gone girl – Em parte incerta, Gyllian Flynn oferece-nos Lugares escuros, um thriller complexo e promissor que, pelo olhar de Gilles Paquet-Brenner – vai ruindo tão completamente.

Ao segundo filme de Gillian Flyan adaptado ao grande ecrã falta a sedutora sofisticação de Gone Girl – Em parte incerta, a sua primeira obra a receber tal transformação pelas hábeis mãos de David Fincher.

Libby Day (infelizmente, interpretada por Charlize Theron) está na penúria.

Aos oito anos, levou o irmão mais velho à prisão depois de o acusar de ter assassinado a sua família inteira.

Aos 30, as doações para a órfã do Kansas esgotaram-se: a solidariedade que a alimentara – a ela e aos seus doentios vícios – começa a falhar perante a imagem de uma mulher crescida que já não é novidade.

“Há sempre outro órfão, um novo crime”, explica-lhe o gestor dos fundos, progressivamente, diminutos.

Com menos de 500 dólares no bolso e dois meses de renda em atraso, Libby cede à oferta Lyle Wirth (Nicholas Hoult), tesoureiro do estanho Kill Club. Lyle pedira-lhe que revisse o caso de Ben Day (Corey Stoll) para que ela própria concluísse a sua inocência.

O desespero e o desaparecimento das suas economias, leva Day numa viagem intrigante ao seu arrepiante passado. 

Charlize-Theron-Dark-Places

A obra de Flynn transpira terror: em todos os pontos finais, procuramos um inexistente porto seguro, chegando mesmo a duvidar do relato de Libby.

À fita de Gilles Paquet-Brenner falta, contudo, essa qualidade arrebatadora.

O filme do realizador d’ A chave de Sara erra, massivamente, em dois momentos cruciais: deixa-se protagonizar por actores que fracamente invocam as magníficas personagens de Flynn e demite-se da criação de um clímax eficaz (conseguido, por sua vez, nas páginas da autora de Gone Girl).

Charlize Theron passeia-se mal vestida. O seu sujo cabelo é guardado por um chapéu vulgar que tenta contribuir para a criação da imagem desleixada de Libby.

Theron é, contudo, demasiado sã para encarnar a psicótica órfã (cheguei mesmo a pensar que Day pudesse ter assassinado a família, embora, nessa ocasião, tivesse apenas oito anos).

Flynn descreve uma Libby quebrada, perturbadora e complexa.

Theron contrai o rosto na sua melhor tentativa de parecer à beira do precipício sem jamais chegar ao outro lado: está parada, exactamente, no lugar do rufia forte e preparado. A irmã mais nova do clã Day seria, precisamente, o oposto.

O mesmo se posso referir em relação a Patty Day (Christina Hendricks), cujo semblante gasto e inanimado me ficou gravado na memória pela pena da escritora americana, mas, decididamente, não pela bonita fita de Paquet-Brenner.

O elenco de luxo seleccionado para este esperado sucesso é, sumariamente, demasiado atraente para sequer sonhar em preencher os moldes preparados por Flynn.

A excepção? Chloe Moretz no papel de Diondra. Devidamente arrepiante e odiosa, Moretz complexifica a rebelde adoradora de Satanás. A sua actuação é brilhante.

Por outro lado, o desfecho de Lugares escuros deixa a sensação de que, afinal, as duas horas dedicadas a este pequeno thriller deixaram bastante a desejar.

Falta-lhe a capacidade de agarrar o espectador até ao último momento – como conseguira, de resto, Gone Girl – e a sabedoria de o fazer saltar no momento de maior tensão.

A densidade da intriga produz, paralelamente, o desgaste da atenção do espectador e o estímulo da expectativa. Esse tremendo final anunciado não chega.

Paquet-Brenner não é capaz de imprimir nestas últimas cenas o terror que Flynn ofereceu nas suas páginas ou que Fincher prometeu em Gone Girl.

Libby é uma anti-heroína cativante, Lyle um admirador misterioso, Ben um inocente demasiado culpado: Lugares escuros é uma promessa auspiciosa que, infelizmente, não conseguem saltar com destreza para o grande ecrã.

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